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O Regicídio visto por Dom Manuel II

por Blog Real, em 17.09.17

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A 1 de Fevereiro de 1908, no regresso de mais uma estadia em Vila Viçosa, o rei D. Carlos e o princípe herdeiro D. Luís Filipe, são assassinados em pleno Terreiro do Paço.

De um só golpe, Costa e Buiça, decapitavam a monarquia portuguesa, deixando o trono nas mãos de um pouco preparado D. Manuel, sem capacidade nem margem de manobra para gerir uma situação política explosiva que culminaria com a queda da monarquia e a implantação da República a 5 de Outubro de 1910.

A 21 de Maio de 1908, quase 4 meses após o regicídio, o já então rei D. Manuel II, descreveu a forma como viveu este trágico acontecimento, sob o título de “Notas absolutamente íntimas“, de que apresentamos o excerto que se segue.


«Há já uns poucos de dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas intimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pae e o meu querido Irmão. Isto que aqui escrevo é ao correr da pena mas vou dizer franca e claramente e também sem estilo tudo o que se passou.

Talvez isto seja curioso para mim mesmo um dia se Deus me der vida e saúde. Isto é uma declaração que faço a mim mesmo. Como isto é uma historia intima do meu reinado vou inicia-la pelo horroroso e cruel atentado.

No dia 1 de Fevereiro regressavam Suas Magestades El-Rei D. Carlos I a Rainha a senhora D. Amélia e Sua Alteza o Principe Real de Villa Viçosa onde ainda tinha ficado.

Eu tinha vindo mais cedo (uns dias antes) por causa dos meus estudos de preparação para a Escola Naval. Tinha ido passar dois a Villa Viçosa tinha regressado novamente a Lisboa.

Na capital estava tudo num estado excitação extraordinária: bem se viu aqui no dia 28 de Janeiro em que houve uma tentativa de revolução a qual não venceu.

Nessa tentativa estava implicada muita gente: foi depois dessa noite de 28, que o Ministro da Justiça Teixeira d’Abreu levou a Villa Viçosa o famoso decreto que foi publicado em 31 de Janeiro. Foi uma triste coincidência ter rubricado nesse dia de aniversário da revolta do Porto.

Meu Pae não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa.

Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pae quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir. Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na vespera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa. “Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de Fevereiro.

Melhor teria sido que não tivessem voltado porque não tinha eu perdido dois entes tão queridos e não me achava hoje Rei! Enfim, seja feita a Vossa vontade Meu Deus!

Mas voltando ao tal decreto de 31 de Janeiro.

Já estavam presas diferentes pessoas politicas importantes. António José d’Almeida, republicano e antigo deputado, João Chagas, republicano, João Pinto dos Santos, dissidente e antigo deputado, Visconde de Ribeira Brava e outros.

Este António José d’Almeida é um dos mais sérios republicanos e é um convicto, segundo dizem. João Pinto dos Santos, é também um dos mais sérios do seu partido.

O Visconde de Ribeira Brava, não presta para muito e tinha sido preso com as armas na mão no dia 28 de Janeiro.

Mas o António José d’Almeida e João Pinto dos Santos não podiam ser julgados senão pela Câmara como deputados da última Câmara.

Ora creio que a tensão do Governo era mandar alguns para Timor tirando assim por um decreto dictatorial um dos mais importantes direitos dos deputados.

O Conselheiro José Maria de Alpoim par do Reino e chefe do partido dissidente tinha tido a sua casa cercada pela policia mas depois tinha fugido para Espanha. Um outro dissidente também tinha fugido para Espanha e lá andou disfarçado.

Outro que tinha sido preso foi o Afonso Costa: este é do pior do que existe não só em Portugal mas em todo mundo; é medroso e covarde, mas inteligente e para chegar aos seus fins qualquer pouca vergonha lhe é indiferente. Mas isto tudo é apenas para entrar depois mais detalhadamente na história íntima do meu reinado.

Como disse mais atrás eu estava em Lisboa quando foi 28 de Janeiro; houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação.

O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!

Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908 sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King.

Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch.

Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos. Na vespera tinha estado tocando a 4 mãos com o meu querido mestre Alexandre Rey Colaço o Septuor de Beethoven, que era, e é uma das obras que mais aprecio deste génio musical. Depois do almoço à hora habitual quer dizer às 13:15h comecei a minha lição com o Fontoura da Costa, porque ele tinha trocado as horas da lição com o Padre Fiadeiro.

A hora do Fontoura era às 17:30h. acabei com o Fontoura às 15 horas e pouco depois recebi um telegrama da minha adorada Mãe dizendo-me que tinha havido um descarrilamento na Casa-Branca, mas não tinha acontecido nada, mas que vinham com três quartos de hora de atraso.

Vendo que nada tinha acontecido dei graças a Deus, mas nem me passou pela mente, como se pode calcular o que havia de acontecer.

Agora pergunto-me eu aquele descarrilamento foi um simples acaso?

Ou foi premeditado para que houvesse um atraso e se chegasse mais tarde?

Não sei.

Hoje fiquei em dúvida.

Depois do horror que se passou fica-se duvidando de muita coisa. Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza.

Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal.

Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.

Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Paes e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae.

O meu chorado Irmão deante do meu Pae e eu deante da minha mãe.

Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias.

Que tarde e que noite mais atroz! Ninguem n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi.creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.

Saimos da estação bastante devagar.

Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouvio o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstrosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames!

Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”.

Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina.

Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”.

O homem sahiu do passeio e veio se pôr atraz da carruagem e começou a disparar. (*)

(*) Ambos os atiradores, o primeiro sobre El-Rei e o segundo sobre o Príncipe, dispararam nas costas dos visados.

Faço aqui um pequeno desenho para mesmo me ajudar.

 

1) Estátua de D. José
2) Sítio onde estava o Buissa o homem das barbas
3) Lugar onde elle começou a fazer fogo
4) Sítio aproximadamente onde devia estar a carruagem Real quando o homem começou a fazer fogo
5) Portão do Arsenal
6) Praça do Pelourinho
7) Sítio aproximadamente donde sahiu o tal Costa que matou o meu Pae.

Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era.

Meu Deus que horror.

O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos;(…).» 

Fonte: http://jornalpovodeportugal.eu/2016/02/01/o-regicidio-visto-por-dom-manuel-ii/

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publicado às 20:39

Cartas do Infante Dom Manuel ao seu irmão o Príncipe D.Luís Filipe, escritas entre os 5 e os 7 anos de idade

por Blog Real, em 09.09.17
Paço das Necessidades
 
Meu queridíssimo Príncipe da minha alma
 
Que grande gôsto me deram as suas duas cartas, tão boas, tão bem escritas. Mas onde foi o meu amor de Príncipe descobrir tanta gataria? Faz-me curiosidade: mas nunca é bom atiçar as gatas mexendo-lhes nos filhos pequeninos. Mas, coitadas, julgam que lhos querem tirar e zangam-se, pudera!
Eu vou melhorando mas parece-me que não será ainda a 20 que terei o grandíssimo gôsto de O abraçar. Estou num calor horrível, mosquitos e traças a fartar. No Domingo à tarde houve ameaça de trovoada mas, G. a D., passou, só com um trovão, e longe, e bastante chuva depois. Bem, pode ser muito bom, ser muito obediente à Calita, que tanto trabalho tem com Os grandes Príncipes. Viu a passagem das rôlas, ou seriam andorinhas?
Aceite o mais saudoso beijo do
Manuel.
14 de Setembro – 71/2 da tarde.
(*) Estas cartas achavam-se em poder da sua extremosa Aia, a Exma. Sra. D. Carlota Campos, a qual Dom Manuel tratava por Calita.
----------------------------------
19-3-95
 
Na cama.
 
Meu querido Mano
 
Agradeço-lhe imenso o que me mandou. Eu estou melhor, no dia dos seus anos talvez já me levante, disse o Lencastre. Deus queira que me levante. O Mano se está bem. Aí vem a carruagem para o Mano sair. Tenho um balão muito teso, e uma bacia e um jarro. O balão é encarnado. Diga à Dama que a cama do boneco já está no escritório para ir para o colchoeiro. Faz hoje muito vento. O Mariano Reis veio saber de mim. Morreu o Manuel carroceiro. Deus leve a sua alma em paz, amén. Deus queira que a cama já cá esteja no dia dos anos do Mano. Hoje não tenho febre. Era uma vez uma gata chamada pata, morreu a gata acabou-se a carta.
Adeus meu querido Mano, dou-lhe um beijinho na pontinha do nariz.
Seu querido Mano
Manuel.
 
Do livro "O Rei Saudade", de José Dias Sanches, com Prefácio do Dr. Thomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra
Fonte: Blog Real Família Portuguesa

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publicado às 19:34

Rainha D. Amélia - Carta Manuscrita

por Blog Real, em 07.05.16

Bela carta manuscrita, com timbre da Rainha D.Amélia, assinada e enviada de "Belem, mercredi matin"Dirigida a "ma chère Izabel" (Lobo de Almeida, sua camarista)A Rainha, escrevendo em francês, mostra-se solidária com o estado de tristeza da sua dama camarista:"...Il faut que je vous dire uns fois de plus combien je pense à vous, et combien jái de peine en vous sachant si triste et si tourmentée... mais soyes sure que mon coeur est bien prés de vous..."E despede-se com carinho... "... Adieu, ma cheri Izabel, croyez moi toujours, Votre bien affectionnée amie, D.Amelia Rainha..."

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publicado às 22:40

Carta do Infante D.Manuel à Sra. D.Carlota Campos

por Blog Real, em 25.03.16
CARTAS ESCRITAS ENTRE OS 5 E OS 7 ANOS DE IDADE.
D.Manuel II

Paço da Pena, 29-2-96

 
Minha querida Calita.
 
Tem estado uns dias muito bonitos. Hoje fomos à feira de S. Pedro. A Mamã comprou três leitões, um pau de marmelo para mim, e outro de carrasco para o Mano. A Dama comprou-me uma branquinha de cabeceira, muito engraçadinha e um tinteiro que é um globo terrestre, mais pequeno do que o do mano, mas é a mesma coisa!
 
Hoje tem estado um grande calor. Então a Calita como está?
Eu estou bem, o Mano também e todos também estão bons.
 
O Papá e o Mano foram à caça, era pouca e eu fui ver. O Papá não matou nada, porque só atirava aos pica-paus, mas foi de muito longe. O Mano é que trouxe dois pássaros. Muitas saúdes minhas e recados. O Ribeira recomenda-se muito, êle é o caturrão da Caninha Verde, eu sou o Comendador e o Mano é o grã-cruz.
 
A Condessa dEdla só vem no princípio do mês.
                                                                                                                          Seu muito amigo
                                                                                                                            
                                                                                                                          D. Manuel.
 

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publicado às 00:39

Correspondência da Rainha D.Amélia

por Blog Real, em 18.03.16

cartas Rainha D. Amélia

A última Rainha de Portugal fala do seu "vestido de veludo azul com botões de diamantes". 
 
O recado é curto, escrito em francês e com uma caligrafia arrebitada. Ainda não era tempo de folhas pautadas e, talvez por isso, as frases caiam um pouco à medida que chegam ao lado direito da folha — sinal de que foi escrito por alguém destro. Lá em cima, lê-se em duas linhas: “Paço de Belém — Lisboa”.
"Minha querida Izabel,
Vamos ao ginásio e eu visto o meu querido vestido de veludo azul com botões de diamantes…”
 
E, no fundo, uma rubrica rápida: “Amélia”. Ou seja, a Rainha Dona Amélia, a última de Portugal.

carta-manuscrita-rainha-d-amelia (1)

Carta manuscrita da Rainha Dona Amélia
Fonte: OBSERVADOR

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publicado às 23:04


Este blog pretende ser o maior arquivo de fotos e informações sobre a monarquia portuguesa e a Família Real Portuguesa.

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A Fundação Dom Manuel II é uma instituição particular, sem fins lucrativos, de assistência social e cultural, com acções no território português, nos países lusófonos, e nas comunidades portuguesas em todo o mundo.
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Prémio Infante D. Henrique
Com a fundação do Prémio Infante Dom Henrique, do qual S.A.R. o Duque de Bragança além de membro fundador é Presidente de Honra, Portugal tornou-se o primeiro país europeu de língua não inglesa a adoptar o programa de "The International Award for the Young People".
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Por vontade d'El-Rei D. Manuel II, expressa no seu testamento de 20 de Setembro de 1915, foi criada a Fundação da Casa de Bragança em 1933, um ano após a sua morte ocorrida a 2 de Julho de 1932. 
O último Rei de Portugal quis preservar intactas as suas colecções e todo o património da Casa de Bragança, pelo que deixou ainda outros elementos para precisar o seu intuito inicial e legar todos os bens sob a forma do Museu da Casa de Bragança, "à minha Pátria bem amada"

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