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Carta de José Lobo de Vasconcelos a D.Manuel II, Ajudante de Campo do Rei

por Blog Real, em 01.06.19

Senhor Dom Manuel:

Há muito que tenho vontade de escrever a Vossa Magestade porque sei quanto nos é agradável ter notícias, mesmo insignificantes, de quem nos é caro. Vossa Magestade, apesar do que deve ter sofrido, ainda, com certeza, ama a sua Pátria; mas o respeito que tenho pelo nosso Chefe, pelo meu Rei, impedia-me de o fazer e, se não fosse o bilhete que Vossa Magestade se dignou enviar-me, e implicitamente me autoriza a fazê-lo, nunca o faria.

Se no que vou escrever Vossa Magestade, porventura, encontrar alguma coisa que pareça menos respeitosa, atribua-o à minha inabilidade e nunca a falta de respeito. Conheço Vossa Magestade desde criança, sei que o cumprimento dos seus deveres foi sempre considerado por Vossa Magestade como o seu principal dever, por ele sacrificando tudo.

Calculo, por conseguinte, quantas vezes terá pensado se o cumpria ou não, e quanto lhe terá custado se algumas dúvidas se levantaram no seu espírito.

o que sucedeu tinha que suceder!

Os políticos, com que Vossa Magestade tinha de governar, segundo a Carta, que tinha jurado manter e seguir, eram completamente incapazes de O ajudarem, uns por falta de competência e sem os conhecimentos indispensáveis, (eram quasi imbecis)! Outros, a ambição desmedida cegava-os de modo que não viram que cavavam a honra da Pátria e a sua própria. E assim se formaram a série de ministérios que, não podendo vencer as dificuldades que lhe apresentavam, torneavam-nas e em pouco viam-se de tal modo encurralados (?) que, à mais pequena dificuldade nova que aparecesse, abandonavam as suas pastas, e o que é mais extraordinário, iam para a oposição, raivosos, e tentavam levantar novos obstáculos aos que lhes sucediam, para estes não resolverem o que eles não tinham sabido, ou podido, resolver, não se importando de sacrificar Aquele a quem deviam o seu poder.

Daqui a política portuguesa nunca ter uma orientação certa, determinada, umas vezes era conservadora, outras avançada, e outras um misto que ninguém percebia, o que, reflectindo-se no País, pô-lo no estado de indiferentismo em que o veio a encontrar o 5 de Outubro. A revolução não foi conta Vossa Magestade, foi contra os seus políticos, que foram os que ajudaram a fazer, protegendo os comícios, jornais insidiosos, em que se atacavam o mais vigorosamente o princípio da autoridade, premiando os que se revoltavam, consentindo que nas escolas oficiais se fizesse propaganda contra as instituições, dando lugares rendosos aos que se salientavam nessa propaganda, etc. e os políticos não tinham dúvida em se ligar com os revoltosos, se deles precisassem para derrubar ministérios, etc.

Nestas condições que poderia Vossa Majestade fazer? Nada, a não ser que quisesse por de parte a Carta e governar por si, mas, para isso precisava apoiar-se nas classes conservadoras, mas essas não o poderiam dar em Portugal.

A Aristocracia que tinha os seus membros ligados intimamente à Monarquia, não podia já servir de apoio. É certo que existem indivíduos que são verdadeiros aristocratas, mas são poucos, e não chegavam para formar uma classe útil ao fim a que se destinava.

Vossa Magestade deve ter reparado no sorriso peculiar com que os aristocratas antigos têm quando falam dos modernos.

A classe Eclesiástica essencialmente conservadora, não podia servir de apoio apesar da enorme força que tem no País, mas de que ela não sabe dispor porque é, de todas, a mais desunida.

o padres seculares, a quem em geral falta a instrução e a educação necessária foram transformados pelos políticos em galopins eleitorais, (é claro que há excepções), os párocos· só pela política alcançavam as suas freguesias, por isso eram políticos, tanto como os verdadeiros políticos. Os das ordens religiosas, que se tinham a pouco e pouco, e cautelosamente, estabelecido, de novo, no País, olhavam os seculares como uma coisa aparte, e daí a rivalidade que, cada vez, mais enfraquecia essa classe. A importância desta classe que, à primeira vista parece menos própria para servir de apoio a um Chefe de Estado, estava, principalmente, na educação que era obrigada a dar ao povo, e que oficialmente estava unicamente entregue aos párocos e aos professores de instrução primária e sob este ponto a sua influência podia ser enorme. Vossa Magestade lembra-se do pequeno do Guardão (?) Que saudades tive ao lembrar-me desse dia. Mas a maior parte não podia dar o que não tinham.

A classe Militar era de todas a que mais facilmente poderia servir de apoio eficaz mas os monárquicos tiveram a habilidade de a estragarem, de modo que serviu, ainda que vergonhosamente, para fazer cair a Instituição, e creia Vossa Magestade, que a maioria dos militares eram e são monárquicos; os militares só obedecem de boa vontade, a quem possa e saiba vestir uma farda, a quem seja militar como eles.

A Aristocracia que tinha sofrido já golpes profundos antes da era áurea das nossas conquistas, pode restabelecer-se com essas conquistas em todo o mundo; em Alcacer Quibir e com o domínio espanhol, sofreu novos golpes mas a restauração e as campanhas que se seguiram para assegurar a independência de Portugal, de novo se levantou, de modo tal que, o Marquês de Pombal entendeu que precisava ( de) novo golpe. Deste curou-se, mas mal, pela reacção a seu favor que a crueldade do Pombal levantou em todo o País. Com os tristes acontecimentos do princípio do século passado tomou a descer no conceito público, mas a guerra peninsular a maneira como alguns aristocratas procederam tomaram a eleva-la mais longe do que tinha sido;.Com a mudança do absolutismo para o regime constitucional sofreu um golpe mortal, mas ia vivendo porque um ou outro dos seus membros conseguia distinguir-se na guerra, na política, nas ciências; o golpe de misericórdia foi-lhe dado porém, com a abolição dos morgadios.

Os aristocratas não perceberam a mudança profunda que essa abolição trazia à sociedade portuguesa, não educou, com raras excepções, os seus filhos de modo a puderem resistir a essa mudança e daí uma derrocada que lhes fez abrir os olhos e ver as suas consequências mas já sem as poderem remediar.

O Comércio e a Indústria também não podiam formar uma classe que oferecesse um apoio seguro. É verdade que os seus interesses estão ligados à paz, sossego e à ordem, mas os principais comerciantes, banqueiros e industriais são estrangeiros, e os portugueses que existem com raras excepções procuram passar à aristocracia com as comendas e benevolencias que o dinheiro merece, mas sempre considerados como intrusos.

Mas os oficiais estavam divididos em duas classes, os militares propriamente ditos que eram os que comandavam tropas, e os pseudo-militares que eram os que aproveitavam a farda para obterem lugares rendosos, ou pelo menos cómodos, e que iam às unidades: só quando a lei das promoções a isso os obrigava, e como isso se dava em dois postos de mais importância para a disciplina e instrução das tropas, capitão e coronel, pode-se calcular o mal que iam fazer nos dois anos que eram obrigados a fazer serviço, e como os outros lhe obedeciam. Vestiam fardas mas não eram militares como eles; alguns limitavam-se a comparecer no quartel e a assinarem papéis que os outros lhed apresentavam, estes eram inúteis, não eram muito prejudiciais, mas uns outros que pretendiam mostrar o seu espírito militar e em tudo se intrometiam, em tudo queriam mandar, sem nada saberem por mais que tivessem lido, esses só não eram prejudiciais quando os outros vendo a sua incapacidade se insubordinavam mansamente e faziam o serviço, como era indispensável, não se importando com o que eles diziam e deste modo dava-se o paradoxo que se só não era prejudicial quando promovia a insubordinação!

Isto juntamente com a falta de meios para o serviço a fazer e a convicção que os militares tinham que debaixo das ordens dos pseudo-militares fariam sempre má figura; talvez explique a figura vergonhosa que o exército fez e tem feito deste Outubro.

Desculpe Vossa Magestade esta comprida carta, mas, no seu País, desde que implantaram a liberdade, esta desenvolveu-se de tal modo que passou (?) do infinito e mudou de sinal, de modo que, se a sociedade do livre pensamento chegar a radiografar o nosso pensamento nem esse teremos livre e passará a sociedade de “escravo pensamento”; manifestá-lo, isso já não deixam, e, por isso é muito dificil, além de várias outras razões, encontrar pessoas com quem se possa falar: é essa a razão porque espero que Vossa Magestade me perdoe.

Lembrei-me agora duma coisa que muitas vezes me aconteceu quando estudava Cálculo: enchia a pedra com grande trabalho para chegar ao fim com o cálculo errado! Começava a emendar, perdia muito tempo sem conseguir nada, e, por fim resolvia apagar tudo e começava de novo .. , Se Vossa Magestade voltar à sua Pátria encontrará a “pedra” limpa sem ter tido o trabalho de a apagar; outros se encarregaram de o fazer, e poderá começar a resolução do seu problema. Muitas vezes à segunda tentativa acertava, (principalmente se tinha descansado) a apagar (?) e a recomeçar o cálculo.

Quando começar a resolver o seu problema não se esqueça da “Produtora”, escute-a.

Tinha esperanças, e ainda hoje tenho, nessa classe composta, em grande parte, do que antigamente se chamava “povo” e de membros de todas as outras a que me referi, que se dedicam ao trabalho e que, para seguir a moda da “democracia portuguesa”, chamarei “Produtora”, Essa sim que é conservadora, sabe quanto lhe custa o trabalho e por isso ama o produto do seu trabalho; quer guarda-lo e o defende até à última. Precisa de paz, sossego e ordem para continuar a trabalhar, e ainda de orientações certas e determinadas, e que só a permanência do Chefe Supremo lhe pode dar, e, por conseguinte, ,e ainda que muitos o não digam, querem a Monarquia. Não a antiga que, enredada em preconceitos e laços de toda a ordem deixou-se maniatar e morrer sem se defender, mas uma Monarquia livre, uma Monarquia … “Socialista”! Os extremos tocam-se. Vossa Magestade, segundo a sua Religião, é socialista, mas socialista “prático”, que produz o Bem e não o “utópico que produz amanhã a anarquia (?).” Amar o próximo como a nós próprios, digo, mesmo, é um dos seus mandamentos e, portanto, “deve deixar vir a mim os pequenos”.

Tenho pena de não escrever em latim, mas, por causa da “liberdade” que estou gozando desde que Vossa Magestade saiu de Portugal tenho receio que me apanhem a carta, me chamem jesuíta, e, por enquanto, ainda não estou a disposto a oferecer o meu corpo para servir de Judas no sábado … 40 dias depois de sábado gordo; toda a cautela é pouca.

Vossa Magestade foi “socialista”, foi propagandista. O que foi a sua estada no Porto, e a sua viagem ao Norte, senão verdadeira propaganda, com visitas a fábricas, oficinas, e mais estâncias de trabalho, com as visitas a hospitais, e casas de caridade destinadas a receber os proletários que adoeciam ou se inutilizavam no trabalho. E, para não haver dúvidas, Vossa Magestade nos seus discursos exortava ao trabalho dizendo que “amava os trabalhadores e que se achava bem entre eles”. Sei qual o fim mas fosse qual fosse o que é facto é que Vossa Magestade reconheceu o valor dos que trabalham e quis animá-los a continuar, ensinando-lhes que a salvação da Pátria estava neles!

A Produtora correspondeu ao seu apelo, e todos pediam que Vossa Magestade visitasse as suas estâncias de trabalho e, aí, manifestavam, de todos os modos, a gratidão a Vossa Magestade; não digo que a vaidade e rivalidades não influíssem mas isso não obsta que eles reconhecessem o poder de Vossa Magestade, em quem depositavam toda a sua esperança. A isto chamo “monarquia socialista”.

Se os políticos não estivessem cegos, e vissem aonde o caminho para Vossa Magestade começava a trilhar, e procurassem trazer para Portugal o que noutras nações mais adiantadas, há muito fora concedidavesta classe talvez o que sucedeu não houvesse sucedido …

Vossa Magestade não teve culpa, apesar dos seus 19 anos e de não conhecer o mundo, indicou-lhes bem o caminho a seguir. É mais um motivo para não deixar dominar o espírito pelas dúvidas a que acima me referi.

Se isto não bastar pense na maioria do Pais, a que não está estragada pela falsa instrução e educação ou que não está cega pela ambição desmedida, e pensa como a Produtora pensa…

Lembra-se na volta da Carregosa (?), um homem chegou-se ao pé de Vossa Magestade perguntando-lhe se era o Rei, e, quando teve a certeza, disse-lhe: “Vossa Magestade é que é o verdadeiro patriota, vem até aos pobres para conhecer as suas necessidades, não corno os que estão em Lisboa (políticos) que só se lembram de nós para pedirem votos. Se digo isto não é para pedir esmola, que eu com estas mãos calejadas (e mostrou as mãos) bastam para sustentar minha mulher e 5 filhos, mas para que façam caso de mim” e levantou um “viva ao verdadeiro Patriota” (?).

Lembra-se do carreiro na descida do Pessegueiro, quando se perguntou porque não arranjavam a estrada, dizer “os comilões de Lisboa gastam o dinheiro todo~ não querem saber de nós; para aqui é que eles deviam vir para saberem quanto custa a

ganhar a vida” (7).

Lembra-se do pequeno de Guardão (7) dizer: “Se não fosse o Rei todos nos roubavam” (?).

Eu várias vezes tenho ouvido a trabalhadores do campo e já, até, a professores primários dizer: “Se queriam a república nomeassem D. Manuel presidente”! Mostra ignorância, mas mostra que o povo português não é, como muitos diziam a Vossa Magestade, e que a revolução não foi feita contra Vossa Magestade, nem por sua culpa.

Guarda, 11 de Setembro de 1911

José Lobo

 

  • General de Artilharia
  • Ajudante de Campo dos reis D. Carlos e D. Manuel II

Fonte: Blogue Esquerda Monárquica

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publicado às 19:27

Carta de D. Pedro IV à filha, D. Maria da Glória – EXPOSIÇÃO

por Blog Real, em 06.02.19

Carta de D. Pedro IV à filha, D. Maria da Glória, congratulando-se com o bom resultado obtido na lição de História e exortando-a a aplicar-se nos estudos para que um dia pudesse “ fazer a fortuna deste desgraçado Portugal”. Porto, 17 de maio de 1833.

Esta exposição apresenta documentos do Cartório da Casa Real nomeadamente alguma da  correspondência  trocada no seio familiar desta jovem  princesa que tendo nascido no Brasil veio a ser a rainha D. Maria II de Portugal.

Integradas no primeiro núcleo estão algumas das muitas cartas escritas por seu pai, D. Pedro IV, envolvido nas lutas pela causa liberal, e que ilustram a ternura e preocupações próprias  de um pai que à distancia procura acompanhar o crescimento e a educação  desta filha destinada a um papel crucial nos destinos do reino, incutindo-lhe os valores liberais, aconselhando-a a aplicar-se nos estudos, admoestando-a quando considera que tal não está a acontecer.

Pela sua escrita  mantem-na sempre informada do desenrolar dos acontecimentos da guerra civil ,como nesta carta, escrita do Porto, em janeiro de 1833, onde dá conta da situação aí vivida  consequente do cerco movido pelas forças de D. Miguel.

 

 

 

Fonte: http://www.dmariaii.pt/2019/02/06/exposicao-torre-do-tombo/

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publicado às 22:13

Dor da Rainha D. Amélia - Nas Próprias Palavras

por Blog Real, em 04.02.19

Dor da Rainha D. Amélia - Nas Próprias Palavras

'Lisboa, Palácio das Necessidades, Sábado, 1 de Fevereiro de 1908

Escrever. Escrever para não gritar. Para não perder a razão - sim, para não perder a razão. Para expulsar, por um instante que seja, as terríveis imagens deste dia, e suportar o longo horror desta noite, a primeira de todas as que estão para vir. 
Escrevo para mim. Escrevo para não enlouquecer, mas a rainha de Portugal não se entrega à loucura. Ela cumpre o seu dever, ou morre como morreu hoje o rei de Portugal, D. Carlos I, como morreu hoje o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, como ela própria deveria ter morrido sob as balas dos assassinos.
Meu Deus, porque permitiste que matassem o meu filho? Protegi-o com todo o meu corpo, expus-me aos tiros, quis desesperadamente que eles me trespassassem a mim. E bastou uma única bala para destruir o rosto do meu filho.
A dor cobriu tudo. Esvaziou-me o Espírito. As recordações desapareceram, estou incapaz de chorar. Inerte.
Preciso de continuar a escrever até que o dia rompa, em vez de deixar que os pesadelos me invadam num sono inquieto. É preciso descrever a realidade, mais cruel do que o pior dos pesadelos.

Amélia, Rainha.'

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica

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publicado às 12:50

Carta do tenente-coronel Joaquim Mouzinho de Albuquerque ao Príncipe Real D.Luís Filipe

por Blog Real, em 15.10.18

CARTA DO TENENTE-CORONEL JOAQUIM MOUZINHO DE ALBUQUERQUE AO PRÍNCIPE REAL D. LUÍS FILIPE

‘Meu Senhor:
Quando Vossa Alteza chegou à idade em que a superintendência da sua educação tinha que ser entregue a um homem, houve por bem El-Rei nomear-me Aio do Príncipe Real. Foi Sua Majestade buscar-me às fileiras do Exército. Não escolheu por certo o militar de mais valor, mas simplesmente aquele a quem uma série de acasos felizes mais ensejo dera de provar que sabia, custasse o que custasse, obedecer ao que lhe era ordenado e que também sabia, doesse a quem doesse, fazer cumprir as ordens que dava.
Não por certo a Vossa Alteza como filho e como súbdito, e menos a mim como soldado, compete apreciar e criticar as determinações de El-Rei. A Vossa Alteza como a mim, deu Sua Majestade uma ordem, a ambos nós cumpre obedecer-lhe e nada mais. Mas para bem lhe obedecer não basta ver-lhe a letra, é necessário estudá-la, descortinar-lhe o espírito. Escolhendo um soldado para vosso Aio, que fez El-Rei? Subordinou a educação de Vossa Alteza ao estado em que se acha o País. Nesta época de dissolução, em que tão afrouxados estão os laços da disciplina, entendeu Sua Majestade que Portugal precisava mais que tudo de quem tivesse vontade firme para mandar, força para se fazer obedecer. E como ninguém pode ensinar o que não sabe, o que não tem praticado, foi El-Rei procurar o vosso Aio à classe única em que se encontra quem obedeça sem reticências e mande sem hesitações.
Por esse motivo, o primeiro dos meus deveres é fazer de Vossa Alteza um soldado. É Vossa Alteza Príncipe, há de ser Rei; ora, Príncipe e Rei que não comece por ser soldado, é menos que nada, é um ente híbrido cuja existência se não justifica. Há poucos anos andava pela Europa, num exílio vagabundo de judeu errante, um Imperador que num momento de crise esqueceu que o seu título vinha do latim "Imperator", epíteto com que se saudavam os vencedores, e que se não vence sem desembainhar a espada -- sine sanguine victoria non est. Por um erro igual já subiu um Rei ao cadafalso e outros foram despedidos do trono para o exílio sempre doloroso e humilhante. Príncipe que não fôr soldado de coração, fraco Rei pode vir a ser.
O que foram na verdade os Reis primitivos? Guerreiros audaciosos que os companheiros de armas levantaram nos escudos acima das suas cabeças. E o que foi o maior dentre os Reis, aquele cujo nome ribomba como um trovão na história deste século? Um militar ambicioso que, elevado ao Império pelos seus soldados, não se deu por contente enquanto não pôs o pavês que o levantara em cima das costas dos outros Reis da Europa que lhe serviram de pés ao trono. E entretanto, a despeito da sua incomparável grandeza de ânimo, a despeito das qualidades únicas de mando com que a Providência o dotara, talvez para castigo de muitos, por certo para exemplo de todos, caiu esse colosso e o grande Imperador foi derrubado por esses mesmos que tanta vez vencera. Faltava-lhe a tradição da Monarquia, da linhagem Real, que cimenta e consagra a autoridade dos Reis legítimos.
Mas nessas mesmas linhagens Reais só foram grandes os que souberam lançar mão da espada sempre que lhes foi necessário. Por isso, repito, primeiro que tudo tem Vossa Alteza que ser soldado.
Aprenderá a sê-lo na história de seus avós. Este Reino é obra de soldados. Destacou-o da Espanha, conquistou-o palmo a palmo, um príncipe aventureiro que passou a vida com a espada segura entre os dentes, escalando muralhas pela calada da noite, expondo-se à morte a cada momento, tão queimado do sol, tão curtido dos vendavais como o ínfimo dos peões que o seguia. Firmou-lhe a independência o Rei de "Boa Memória", que tantas noites dormiu com as armas vestidas e a espada à cabeceira, bem distante dos regalos dos Paços Reais. E para a formação de vossa Casa concorreu com o ele o mais branco dos seus guerreiros, que simbolizou e resumiu em si quanto havia de nobre e puro na História Medieval, um herói e um santo. Mais tarde o Príncipe Perfeito, depois de haver mostrado que sabia terçar lanças em combate com o melhor dos cavaleiros, depois de haver abatido de vez todas as cabeças que se erguiam por demais altivas perante a Coroa Real, deu pela força da sua vontade de ferro um impulso de tal ordem às nossas naus, que foram ter ao Cabo da Boa Esperança, abrindo a Portugal o caminho por onde chegou ao apogeu da glória. Soldados, se lhes pode bem chamar a estes, porque tiveram o desapego da vida, a força do mando, a obediência cega àquilo que acima de tudo deve imperar nos Reis -- a ideia fixa e pertinaz da glorificação do seu nome e da grandeza do Reino onde Deus os fez os primeiros de entre os homens.
Para não ser injusto nem ingrato, não deve Vossa Alteza lembrar-se somente dos felizes porque nem só eles foram soldados. Houve um Rei de Portugal que, não podendo ser vencedor, soube morrer herói. Não tendo alcançado a vitória ambicionada, procurou a morte gloriosa. "A liberdade Real só se perde com a vida", foram as últimas palavras que se lhe ouviram e do cativeiro infamante salvou-o a morte, única libertadora invencível porque não há algemas que prendam um morto. Errou, é certo, mas a morte de valente, expiatória e heróica, redime os maiores erros. Bem merece ele o nome de soldado, bem estudada e meditada deve ser a sua História, porque pelo estudo e pela meditação se formam as almas e a alma de um Príncipe para tudo deve estar temperada, até para as maiores desgraças.
Soldado também e como poucos, foi D. Pedro IV. Trabalhou e combateu como soldado e teve a audácia precisa nos lances decisivos, a resignação estóica nas mais dolorosas crises, a presença de espírito nas situações mais difíceis, a decisão rápida e pronta para aproveitar as vitórias. E tanto se lhe enraizaram na alma os brios de soldado que, quando se viu insultado, apupado sem poder desembainhar a espada que tão bem o houvera servido, estalou de dor. As chufas com que o populacho cobarde e ingrato lhe pretendeu enlamear a farda, foram-lhe direitas ao coração, mataram-no.
Estude Vossa Alteza a História desses seus Avós. Leia-a, relei-a, medite-a, estude-a, meta-a bem na cabeça e no coração. Na convivência deles aprenderá Vossa Alteza a ser como eles, forte, justo, simples e verdadeiro. E bem compenetrado do que eles fizeram, conhecendo-lhes a vida dia a dia, sentirá Vossa Alteza que deles vem, que é um deles. Assim sonhará com futuros de glória que se assemelhem a esse passado de grandeza, e sonhar assim é uma felicidade e uma força. Triste do homem que só cuida do presente, que só preza a intimidade dos vivos. Pobre daquele que precisa adormecer para sonhar com o futuro. No olhar saudoso para o que já passou, no imaginar o que há de vir se vai formando a alma, se lhe vão apurando as qualidades, desenvolvendo a força. E chegada a ocasião de as aproveitar, de as pôr em acção, cai-se-lhe em cima como o milhafre sobre a presa e não se deixa escapar. A ciência da vida assemelha-se à arte da guerra, em que numa e noutra é mais preciso que tudo aproveitar as ocasiões e para o fazer é necessário o exercício constante, a trenagem; ora, o estudo e a meditação constituem a trenagem do espírito.
Nasceu Vossa Alteza numa época bem desgraçada para este País. Foi talvez um favor de Deus porque mais na desventura que na felicidade se prova a força do carácter. Em todo o caso é bem certo, meu Senhor, que a vossa história tem sido muito triste porque, convença-se bem Vossa Alteza, os Príncipes não têm biografia, a sua história é, tem de ser a do seu povo. Nessa história, entretanto, há algumas páginas que Vossa Alteza pode ler sem que lhe corem as faces de vergonha, sem que lhe subam aos olhos lágrimas esprimidas do coração triturado de humilhações. Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na história do Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos sertões da África, com as pontas das baionetas e das lanças a escorrerem sangue. Alguma coisa sofremos, é certo; corremos perigos, passámos fomes e sedes e não poucos prostraram em terra para sempre as fadigas e as doenças. Tudo suportámos de boa mente porque servíamos El-Rei e a Pátria, e para outra coisa não anda neste mundo quem tem a honra de vestir uma farda! Por isso, nós também merecemos o nome de soldados; é esse o nosso maior orgulho.
Tudo é pequeno neste nosso Portugal de hoje! O mar já não é curral das nossas naus, mas sim pastagem de couraçados estranhos; foram-se-nos mais de três partes do Império de além-mar e Deus sabe que dolorosas surpresas nos reserva o futuro. Não tiveram, portanto, as guerras em que agora temos andado, o brilho épico dos feitos dos nossos maiores. Mas no campo restrito em que operámos, com os poucos recursos de que dispúnhamos, não fizemos menos nem pior do que outros bem mais ricos e poderosos.
A que devemos este resultado? A que no homem do povo em Portugal ainda se encontram as qualidades de soldado: a resignação, a coragem fria e disciplinada, a confiança nos superiores e, mais que tudo, a subordinação. E é preciso que Vossa Alteza, soldado por dever e direito de nascimento, se possua bem da ideia de que a subordinação é a primeira de entre as virtudes militares. Já a tenho ouvido alcunhar de renúncia da vontade. Ora, ninguém como o soldado carece de força de vontade, porque mais que em coisa alguma se demonstra ela na prática da obediência. Renunciar ao capricho, ao egoísmo, à indolência, a tudo quanto o vulgar dos homens mais aprecia e estima, ter por único fim servir bem, por único enlevo a glória, por único móvel a honra e a dignidade, não é renúncia da vontade. E se nós que somos soldados somente desde o dia em que nos alistámos e podemos voltar à classe civil de onde saímos, precisamos para tudo de muito querer e saber querer, quanto mais um Príncipe para quem nascer foi assentar praça e que só pode ter baixa para a sepultura!
De vontade e vontade de ferro precisará Vossa Alteza no duro mister para que Deus o destinou. Houve Reis, meu Senhor, que para desgraça dos seus povos adormeceram no trono em cujos degraus haviam nascido e nesse dormir esqueceram a missão que lhes cumpria desempenhar. No fim do século passado, o povo francês sacudiu-os de forma tal que os deveria ter acordado para sempre e, desde então, Príncipe que dormitasse no trono acordava no exílio. Assim deve ser. Castiga-se a sentinela que se deixa vencer pelo sono e o Rei é uma sentinela permanente que não tem folga porque, nomeado por Deus, só Ele o pode mandar render e então envia-lhe a morte a chamá-lo ao descanso. Enquanto vive tem o Rei de conservar os olhos sempre bem abertos, vendo tudo, olhando por todos. Nele reside o amparo dos desprotegidos, o descanso dos velhos, a esperança dos novos; dele fiam os ricos a sua fazenda, os pobres o seu pão e todos nós a honra do país em que nascemos, que é a honra de todos nós!
Para semelhante posto só pode ir quem tenha alma de soldado. Porque ser soldado não é arrastar a espada, passar revistas, comandar exercícios, deslumbrar as multidões com os doirados da farda. Ser soldado é dedicar-se por completo à causa pública, trabalhar sempre para os outros. E para se convencer, olhe Vossa Alteza para o soldado em campanha. Porventura vê-o só a marchar e a combater? Cava trincheiras, levanta parapeitos, barracas e quartéis, atrela-se às viaturas, remenda a farda, cozinha o rancho e o que tem de seu trá-lo às costas, na mochila. Desde os misteres mais humildes até ao mais sublime, avançar de cara alegre direito à morte, tudo faz porque todo o trabalho despido de interesse pessoal entra nos deveres da profissão. Trabalho gratuito, sempre, porque o vencimento do militar, seja pré, soldo ou lista civil, nunca é remuneração do serviço, por não haver dinheiro que pague o sacrifício da vida.
É assim que, por mais que espíritos desorientados tenham querido obliterar as tradições de honra do Exército, a profissão entre todas nobre, foi, é e há de ser sempre a militar porque nela se envolve tudo que exige a anulação do interesse individual perante o da colectividade. É por isso que ninguém como o Rei tem de se esquecer de si para pensar em todos, por isso que ninguém como Ele tem de levar a abnegação ao maior extremo, ninguém como ele precisa de ser soldado na acepção mais lata e sublime desta palavra, soldado pronto da recruta em todas as armas, instruído em todos os serviços, desde o de cavalaria que, numa galopada desenfreada através de uma saraivada de balas, vai completar com a carga a derrota do inimigo, até ao do maqueiro que vai buscar os feridos à linha de fogo, ao enfermeiro que deles cuida na ambulância. Tão bom Rei, tão bom soldado foi D. Pedro V nos hospitais, como outros nos campos de batalha, porque a coragem e a abnegação são sempre grandes e nobres, seja onde for que se exerçam, e tudo que é grande e nobre é próprio de Rei e de soldado.
Não faltará ensejo a Vossa Alteza de revelar aquelas qualidades. Não lhe escassearão por certo provações e cuidados, revezes que trazem o desconforto ao espírito, lances dolorosos que desconsolam da vida. Para todos eles carece Vossa Alteza de estar preparado, temperado pela educação, pelo estudo dos bons exemplos, pela firme vontade de vir a ser um Príncipe digno desse nome e do da sua Casa. E para ser Príncipe é preciso primeiro que tudo ser Homem.
Se para descanso de seu espírito vaticinasse a Vossa Alteza um futuro risonho de despreocupações e gozos, faltaria por completo ao meu dever. Ao escolher-me para vosso Aio, disse-me El-Rei: "Faze dele um homem e lembra-te que há de ser Rei". Proporcionando a Vossa Alteza o conhecimento do que fizeram em África os seus mais leais servidores, apontando-lhe com seu exemplo, procurando temperar-lhe a alma para as mais duras provas por que pode vir a passar, não faço mais que cumprir as ordens de El-Rei e procurar, como tenho sempre feito, corresponder à confiança de Sua Majestade. A Vossa Alteza cumpre realizar as esperanças de seu Augusto Pai e nosso Rei, as esperanças de todos os Portugueses.
Que Deus o guie e proteja nesse difícil e glorioso caminho, é o mais ardente voto do Seu Aio muito dedicado.

Mouzinho de Albuquerque’

Fotografia: S.A.R o Príncipe Real D. Luís Filipe de Bragança passando revista à Guarda de Honra, no Colégio Militar, acompanhado pelo, seu Aio, Tenente-Coronel Mouzinho de Albuquerque e pelo Aluno comandante do Batalhão Colegial.

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica

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publicado às 21:00

Carta do Rei D.Manuel II a José Luciano de Castro

por Blog Real, em 04.06.18

‘Tenho trabalhado com a máxima sinceridade e dedicação ao meu País e tenho feito, como bem sabe, tudo o possível para harmonizar! Sou eu, que tenho provocado os conflitos na Câmara [Parlamento]? Sou eu que tenho acirrado a vivacidade das paixões políticas? De mim tudo se exige! Não poderei eu pedir aos políticos que por amor do País atenuem um pouco isto tudo?!’
S.M.F. El-Rei Dom Manuel II | Carta a José Luciano de Castro

Recolha de Plataforma de Cidadania Monárquica

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publicado às 20:25

O Regicídio visto por Dom Manuel II

por Blog Real, em 17.09.17

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A 1 de Fevereiro de 1908, no regresso de mais uma estadia em Vila Viçosa, o rei D. Carlos e o princípe herdeiro D. Luís Filipe, são assassinados em pleno Terreiro do Paço.

De um só golpe, Costa e Buiça, decapitavam a monarquia portuguesa, deixando o trono nas mãos de um pouco preparado D. Manuel, sem capacidade nem margem de manobra para gerir uma situação política explosiva que culminaria com a queda da monarquia e a implantação da República a 5 de Outubro de 1910.

A 21 de Maio de 1908, quase 4 meses após o regicídio, o já então rei D. Manuel II, descreveu a forma como viveu este trágico acontecimento, sob o título de “Notas absolutamente íntimas“, de que apresentamos o excerto que se segue.


«Há já uns poucos de dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas intimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pae e o meu querido Irmão. Isto que aqui escrevo é ao correr da pena mas vou dizer franca e claramente e também sem estilo tudo o que se passou.

Talvez isto seja curioso para mim mesmo um dia se Deus me der vida e saúde. Isto é uma declaração que faço a mim mesmo. Como isto é uma historia intima do meu reinado vou inicia-la pelo horroroso e cruel atentado.

No dia 1 de Fevereiro regressavam Suas Magestades El-Rei D. Carlos I a Rainha a senhora D. Amélia e Sua Alteza o Principe Real de Villa Viçosa onde ainda tinha ficado.

Eu tinha vindo mais cedo (uns dias antes) por causa dos meus estudos de preparação para a Escola Naval. Tinha ido passar dois a Villa Viçosa tinha regressado novamente a Lisboa.

Na capital estava tudo num estado excitação extraordinária: bem se viu aqui no dia 28 de Janeiro em que houve uma tentativa de revolução a qual não venceu.

Nessa tentativa estava implicada muita gente: foi depois dessa noite de 28, que o Ministro da Justiça Teixeira d’Abreu levou a Villa Viçosa o famoso decreto que foi publicado em 31 de Janeiro. Foi uma triste coincidência ter rubricado nesse dia de aniversário da revolta do Porto.

Meu Pae não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa.

Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pae quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir. Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na vespera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa. “Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de Fevereiro.

Melhor teria sido que não tivessem voltado porque não tinha eu perdido dois entes tão queridos e não me achava hoje Rei! Enfim, seja feita a Vossa vontade Meu Deus!

Mas voltando ao tal decreto de 31 de Janeiro.

Já estavam presas diferentes pessoas politicas importantes. António José d’Almeida, republicano e antigo deputado, João Chagas, republicano, João Pinto dos Santos, dissidente e antigo deputado, Visconde de Ribeira Brava e outros.

Este António José d’Almeida é um dos mais sérios republicanos e é um convicto, segundo dizem. João Pinto dos Santos, é também um dos mais sérios do seu partido.

O Visconde de Ribeira Brava, não presta para muito e tinha sido preso com as armas na mão no dia 28 de Janeiro.

Mas o António José d’Almeida e João Pinto dos Santos não podiam ser julgados senão pela Câmara como deputados da última Câmara.

Ora creio que a tensão do Governo era mandar alguns para Timor tirando assim por um decreto dictatorial um dos mais importantes direitos dos deputados.

O Conselheiro José Maria de Alpoim par do Reino e chefe do partido dissidente tinha tido a sua casa cercada pela policia mas depois tinha fugido para Espanha. Um outro dissidente também tinha fugido para Espanha e lá andou disfarçado.

Outro que tinha sido preso foi o Afonso Costa: este é do pior do que existe não só em Portugal mas em todo mundo; é medroso e covarde, mas inteligente e para chegar aos seus fins qualquer pouca vergonha lhe é indiferente. Mas isto tudo é apenas para entrar depois mais detalhadamente na história íntima do meu reinado.

Como disse mais atrás eu estava em Lisboa quando foi 28 de Janeiro; houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação.

O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!

Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908 sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King.

Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch.

Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos. Na vespera tinha estado tocando a 4 mãos com o meu querido mestre Alexandre Rey Colaço o Septuor de Beethoven, que era, e é uma das obras que mais aprecio deste génio musical. Depois do almoço à hora habitual quer dizer às 13:15h comecei a minha lição com o Fontoura da Costa, porque ele tinha trocado as horas da lição com o Padre Fiadeiro.

A hora do Fontoura era às 17:30h. acabei com o Fontoura às 15 horas e pouco depois recebi um telegrama da minha adorada Mãe dizendo-me que tinha havido um descarrilamento na Casa-Branca, mas não tinha acontecido nada, mas que vinham com três quartos de hora de atraso.

Vendo que nada tinha acontecido dei graças a Deus, mas nem me passou pela mente, como se pode calcular o que havia de acontecer.

Agora pergunto-me eu aquele descarrilamento foi um simples acaso?

Ou foi premeditado para que houvesse um atraso e se chegasse mais tarde?

Não sei.

Hoje fiquei em dúvida.

Depois do horror que se passou fica-se duvidando de muita coisa. Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza.

Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal.

Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.

Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Paes e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae.

O meu chorado Irmão deante do meu Pae e eu deante da minha mãe.

Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias.

Que tarde e que noite mais atroz! Ninguem n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi.creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.

Saimos da estação bastante devagar.

Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouvio o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstrosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames!

Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”.

Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina.

Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”.

O homem sahiu do passeio e veio se pôr atraz da carruagem e começou a disparar. (*)

(*) Ambos os atiradores, o primeiro sobre El-Rei e o segundo sobre o Príncipe, dispararam nas costas dos visados.

Faço aqui um pequeno desenho para mesmo me ajudar.

 

1) Estátua de D. José
2) Sítio onde estava o Buissa o homem das barbas
3) Lugar onde elle começou a fazer fogo
4) Sítio aproximadamente onde devia estar a carruagem Real quando o homem começou a fazer fogo
5) Portão do Arsenal
6) Praça do Pelourinho
7) Sítio aproximadamente donde sahiu o tal Costa que matou o meu Pae.

Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era.

Meu Deus que horror.

O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos;(…).» 

Fonte: http://jornalpovodeportugal.eu/2016/02/01/o-regicidio-visto-por-dom-manuel-ii/

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publicado às 20:39

Cartas do Infante Dom Manuel ao seu irmão o Príncipe D.Luís Filipe, escritas entre os 5 e os 7 anos de idade

por Blog Real, em 09.09.17
Paço das Necessidades
 
Meu queridíssimo Príncipe da minha alma
 
Que grande gôsto me deram as suas duas cartas, tão boas, tão bem escritas. Mas onde foi o meu amor de Príncipe descobrir tanta gataria? Faz-me curiosidade: mas nunca é bom atiçar as gatas mexendo-lhes nos filhos pequeninos. Mas, coitadas, julgam que lhos querem tirar e zangam-se, pudera!
Eu vou melhorando mas parece-me que não será ainda a 20 que terei o grandíssimo gôsto de O abraçar. Estou num calor horrível, mosquitos e traças a fartar. No Domingo à tarde houve ameaça de trovoada mas, G. a D., passou, só com um trovão, e longe, e bastante chuva depois. Bem, pode ser muito bom, ser muito obediente à Calita, que tanto trabalho tem com Os grandes Príncipes. Viu a passagem das rôlas, ou seriam andorinhas?
Aceite o mais saudoso beijo do
Manuel.
14 de Setembro – 71/2 da tarde.
(*) Estas cartas achavam-se em poder da sua extremosa Aia, a Exma. Sra. D. Carlota Campos, a qual Dom Manuel tratava por Calita.
----------------------------------
19-3-95
 
Na cama.
 
Meu querido Mano
 
Agradeço-lhe imenso o que me mandou. Eu estou melhor, no dia dos seus anos talvez já me levante, disse o Lencastre. Deus queira que me levante. O Mano se está bem. Aí vem a carruagem para o Mano sair. Tenho um balão muito teso, e uma bacia e um jarro. O balão é encarnado. Diga à Dama que a cama do boneco já está no escritório para ir para o colchoeiro. Faz hoje muito vento. O Mariano Reis veio saber de mim. Morreu o Manuel carroceiro. Deus leve a sua alma em paz, amén. Deus queira que a cama já cá esteja no dia dos anos do Mano. Hoje não tenho febre. Era uma vez uma gata chamada pata, morreu a gata acabou-se a carta.
Adeus meu querido Mano, dou-lhe um beijinho na pontinha do nariz.
Seu querido Mano
Manuel.
 
Do livro "O Rei Saudade", de José Dias Sanches, com Prefácio do Dr. Thomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra
Fonte: Blog Real Família Portuguesa

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publicado às 19:34

Rainha D. Amélia - Carta Manuscrita

por Blog Real, em 07.05.16

Bela carta manuscrita, com timbre da Rainha D.Amélia, assinada e enviada de "Belem, mercredi matin"Dirigida a "ma chère Izabel" (Lobo de Almeida, sua camarista)A Rainha, escrevendo em francês, mostra-se solidária com o estado de tristeza da sua dama camarista:"...Il faut que je vous dire uns fois de plus combien je pense à vous, et combien jái de peine en vous sachant si triste et si tourmentée... mais soyes sure que mon coeur est bien prés de vous..."E despede-se com carinho... "... Adieu, ma cheri Izabel, croyez moi toujours, Votre bien affectionnée amie, D.Amelia Rainha..."

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publicado às 22:40

Carta do Infante D.Manuel à Sra. D.Carlota Campos

por Blog Real, em 25.03.16
CARTAS ESCRITAS ENTRE OS 5 E OS 7 ANOS DE IDADE.
D.Manuel II

Paço da Pena, 29-2-96

 
Minha querida Calita.
 
Tem estado uns dias muito bonitos. Hoje fomos à feira de S. Pedro. A Mamã comprou três leitões, um pau de marmelo para mim, e outro de carrasco para o Mano. A Dama comprou-me uma branquinha de cabeceira, muito engraçadinha e um tinteiro que é um globo terrestre, mais pequeno do que o do mano, mas é a mesma coisa!
 
Hoje tem estado um grande calor. Então a Calita como está?
Eu estou bem, o Mano também e todos também estão bons.
 
O Papá e o Mano foram à caça, era pouca e eu fui ver. O Papá não matou nada, porque só atirava aos pica-paus, mas foi de muito longe. O Mano é que trouxe dois pássaros. Muitas saúdes minhas e recados. O Ribeira recomenda-se muito, êle é o caturrão da Caninha Verde, eu sou o Comendador e o Mano é o grã-cruz.
 
A Condessa dEdla só vem no princípio do mês.
                                                                                                                          Seu muito amigo
                                                                                                                            
                                                                                                                          D. Manuel.
 

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publicado às 00:39

Correspondência da Rainha D.Amélia

por Blog Real, em 18.03.16

cartas Rainha D. Amélia

A última Rainha de Portugal fala do seu "vestido de veludo azul com botões de diamantes". 
 
O recado é curto, escrito em francês e com uma caligrafia arrebitada. Ainda não era tempo de folhas pautadas e, talvez por isso, as frases caiam um pouco à medida que chegam ao lado direito da folha — sinal de que foi escrito por alguém destro. Lá em cima, lê-se em duas linhas: “Paço de Belém — Lisboa”.
"Minha querida Izabel,
Vamos ao ginásio e eu visto o meu querido vestido de veludo azul com botões de diamantes…”
 
E, no fundo, uma rubrica rápida: “Amélia”. Ou seja, a Rainha Dona Amélia, a última de Portugal.

carta-manuscrita-rainha-d-amelia (1)

Carta manuscrita da Rainha Dona Amélia
Fonte: OBSERVADOR

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publicado às 23:04


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Por vontade d'El-Rei D. Manuel II, expressa no seu testamento de 20 de Setembro de 1915, foi criada a Fundação da Casa de Bragança em 1933, um ano após a sua morte ocorrida a 2 de Julho de 1932. 
O último Rei de Portugal quis preservar intactas as suas colecções e todo o património da Casa de Bragança, pelo que deixou ainda outros elementos para precisar o seu intuito inicial e legar todos os bens sob a forma do Museu da Casa de Bragança, "à minha Pátria bem amada"

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