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D.Duarte de Bragança fala sobre o incêndio que ontem destruiu o Museu Nacional brasileiro instalado no Palácio de São Cristóvão no Rio de Janeiro

por Blog Real, em 03.09.18

O incêndio que ontem destruiu o Museu Nacional brasileiro instalado no Palácio de São Cristóvão no Rio de Janeiro, edifício onde viveu a família real portuguesa durante o período de 1808 a 1821, foi uma tragédia que chocou D. Duarte, o descendente de D. João VI e pretendente ao trono de Portugal.

D. Duarte, que soube do fogo no antigo palácio pela comunicação social, considera que se "perdeu também uma parte da História de Portugal no Brasil", tendo em conta que naquelas instalações "existia uma biblioteca criada pelo rei D. João VI, resultante de um trabalho de prospeção científica e cultural do país que tinha encomendado". O interesse principal de muito do espólio agora ardido devia-se, refere D. Duarte, "à documentação das heranças culturais das várias nações indígenas iniciada pelo rei e continuada por D. Pedro II, que era um cientista e grande interessado nas populações indígenas."

O pretendente ao trono português tem esperança que "os documentos agora perdidos devam estar copiados e guardados noutros locais", no entanto no que respeita "aos objetos das várias tribos do Brasil, estou convencido que se devem ter perdido para sempre."

D. Duarte já tinha visitado o museu no Rio de Janeiro e recorda-se de várias peças em que reparou, receando que "se possa ter perdido o esqueleto humano mais antigo do continente sul americano, o de uma mulher". Por outro lado, acredita que nada deve ter acontecido ao maior meteorito encontrado no mesmo continente: "Deve ter resistido e estará debaixo dos escombros."

Para D. Duarte é difícil aceitar que nos tempos de hoje ainda haja perdas destas ao nível de património: "Preocupa-me que haja incêndios em instituições como estas, como recentemente também aconteceu no Museu de Língua Portuguesa. Espero que em Portugal não arda nenhum museu importante e que este exemplo seja levado em conta pelas autoridades nacionais."

Grande admirador de D. João VI, D. Duarte considera que o seu antepassado direto - a sua mãe era bisneta de D. Pedro II e tetraneta de D. João VI e o seu pai descendente do rei D. Miguel - "foi um rei genial no seu desempenho". Como todas as pessoas, argumenta, "qualquer um tem qualidades e defeitos" e no caso desse seu antepassado considera que "ele teve uma excessiva prudência de modo a não criar conflitos". Se por um lado, acrescenta, "essa atitude foi considerado fraqueza por alguns, por outro lado permitiu ao país navegar no meio das grandes potências da época - a França napoleónica e a Inglaterra - e quando os franceses invadiram Portugal ele tinha tudo preparado para mudar a capital para o Rio de Janeiro. Com isso salvou a independência do reino, pois se tivesse ficado prisioneiro nas invasões francesas ter-lhe-ia acontecido o mesmo que ao rei de Espanha, que foi humilhado".

A revisão da História mais recente, alega D. Duarte, "fez com os historiadores atuais já reconheçam essa inteligência em D. João VI e não tratem a mudança da corte para o Brasil como uma fuga, como acontecia até há pouco tempo. D. João VI não abandonou o país, até porque o Brasil era tanto o país dele como Portugal". Quanto à opinião no Brasil sobre o mesmo rei, D. Duarte diz que também se alterou: "Antigamente, devido às novelas muito tendenciosas da TV Globo, ela não era boa, mas hoje em dia também se verificou uma grande revisão histórica e os brasileiros têm uma grande admiração por ele. Afinal, desenvolveu a cultura e a arte, protegeu as nações indígenas e evitou certas questões relativas aos escravos."

Fonte: dn.pt

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publicado às 23:52

Reportagem "Amores Reais"

por Blog Real, em 25.07.18

Por altura do casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle, a TVI fez uma reportagem chamada "Amores Reais" e uma das pessoas entrevistadas foi D.Duarte, Duque de Bragança.

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publicado às 01:20

D.Duarte de Bragança concede entrevista ao "El Mundo"

por Blog Real, em 21.06.18

O Duque de Bragança recebe o "El Mundo" no seu escritório em Lisboa para falar sobre as Famílias Reais no Reino Unido e em Espanha, além do seu próprio papel como pretendente ao trono de Portugal.

Pode ler a entrevista em espanhol aqui.

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publicado às 19:41

Entrevista de D.Duarte, Duque de Bragança ao jornal I

por Blog Real, em 12.06.18

D. Duarte está convencido de que a monarquia ganhava se houvesse um referendo. Anda sempre de transportes públicos e gosta de poupar.

É mais difícil defender a monarquia com um Presidente da República que consegue ser tão popular?

Diria que um presidente que atua como se fosse um rei é um ótimo presidente. Os maus presidentes são aqueles que têm um comportamento contrário àquele que teria um rei. A conclusão a que se pode chegar é que seria melhor ter verdadeiramente um rei. 

Marcelo Rebelo de Sousa atua como um rei?

Exatamente. Ele atua como se fosse um rei. É uma pessoa inteligente, culta, com uma boa formação ética e percebe aquilo que o povo português gosta de ter num chefe de Estado. Eu disse a mesma coisa do general Ramalho Eanes, que também atuou dessa maneira. Ele, no fim do seu mandato, disse que tinha tentado atuar como se fosse um rei constitucional. Foi a definição que ele deu de como é que tentou agir como Presidente da República. Historicamente, temos visto que os Presidentes mais estimados pelo país são aqueles que mais se aproximam da figura do rei.

Se houvesse monarquia teríamos uma espécie de rei dos afetos?

Eu tenho essa proximidade. Na Europa contemporânea todos os Reis têm esse tipo de atitude. Com exceção talvez da Rainha de Inglaterra, que já tem muita idade e é de uma época em que, de facto, o povo queria que a rainha tivesse uma posição mais distante. Foi nesta geração que o desejo popular se manifestou de uma maneira diferente. Os Reis de Espanha têm uma enorme simpatia e um enorme carinho da parte da população. A diferença é que o Presidente da República dá muitas opiniões sobre a realidade política do país e o Rei Filipe foi preparado e educado na lógica de que o rei não deve dar opiniões. Só em particular, em conversa com os políticos e os responsáveis. Raramente dá uma opinião em público. 

Qual seria a grande vantagem de temos um rei em Portugal?

Veja o que os aconteceu nos últimos 100 anos. Os primeiros anos da República foram revoluções, golpes... A II República foi paz e tranquilidade e um certo progresso económico, mas em regime não democrático. A III República voltou à democracia e regressou a instabilidade económica e política. Entrámos em falência várias vezes, tivemos crises e problemas muito complicados. E houve, além disso, a maneira desastrosa como se fez a separação das antigas províncias ultramarinas. Isso mostra que a República não foi capaz de transformar o país numa democracia de uma maneira pacífica. Foi feita com uma revolução com o enorme trauma provocado em todos os antigos territórios portugueses. As independências poderiam ter acontecido de uma maneira pacífica e democrática. Foi uma entrega a movimentos políticos que sustentaram guerras civis terríveis durante dezenas de anos. Houve mais violência e morte depois das independências do que antes da independência.

Não simpatiza com o 25 de Abril?

Eu respeito e simpatizo com o idealismo de muitos oficiais que fizeram o 25 de abril, mas, de facto, houve uma ingenuidade muito grande. Uma falta de preparação política muito grande, provocada também pela falta de preparação política que a II República deu à população portuguesa. Para mim, o maior pecado da II República foi não ter preparado os portugueses para a vida política.

Conheceu Salazar?

Estive duas vezes com ele. Uma das vezes fui falar com ele sobre o meu serviço militar. Fui perguntar-lhe se haveria interferência política se eu concorresse à Força Aérea e ele garantiu que não haveria interferência. Quando ele foi substituído pelo Marcello Caetano fui proibido de voar pelo ministro da Defesa.

Fonte: https://ionline.sapo.pt/615209?source=social

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publicado às 16:49

D.Duarte, Duque de Bragança, concedeu uma entrevista ao jornal "Sol"

por Blog Real, em 09.06.18

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publicado às 02:50

Entrevista de D.Duarte de Bragança ao "Observador"

por Blog Real, em 20.05.18

A Rua dos Duques de Bragança, em Lisboa, deve o seu nome ao palácio da família aristocrata portuguesa, a mesma de que descende D. Duarte. Sem palácio, mas com uma casa num terceiro andar na dita rua, o duque, com 73 anos, recebe as visitas com o mínimo de cerimónia. “Vou pedir pizzas”, exclama. Dito e feito: meia hora depois, estavam três em cima da mesa, bem como pratos, talheres (à vontade não é à vontadinha) e um sortido de bebidas: uma coca-cola, uma cerveja artesanal e três sidras, duas delas de frutos vermelhos.

O casamento do princípe Harry e de Meghan Markle é já no sábado — D. Duarte, herdeiro da coroa portuguesa e um dos vários monarcas europeus não reinantes, tem as suas maiores afinidades distribuídas por outros reinos que não o de sua majestade, Isabel II. É onde estão os “primos”, como diz. Holanda, Luxemburgo, Bélgica, Áustria, Baviera e por aí em diante, só para termos uma amostra de como estas árvores genealógicas são complexas e cheias de nós cegos.

Há 23 anos, foi o próprio casamento do duque que deu que falar. Três mil convidados, uma igreja monumental, a dos Jerónimos, preceitos protocolares até mais não, e uma multidão de gente à porta com direito a acepipes e ecrãs. Até convites falsos houve, uma verdadeira festa. Este fim de semana, D. Duarte e D. Isabel não vão a Windsor.

D. Duarte tem três filhos: Afonso, o mais velho, tem 22 anos, Maria Francisca já tem 21 e o mais novo, Dinis, tem 18. Não será completamente despropositado antecipar o próximo casamento real português. Por cá, a febre com a realeza pode não ser nem metade da dos ingleses, mas é preciso admitir que de um conto de fadas (ou de príncipes e princesas) todos precisamos de vez em quando.

Como é que anda a sua relação com a família real britânica?
Tenho uma relação próxima com o príncipe Eduardo e com o príncipe Carlos. Eu e o Príncipe Eduardo trabalhamos juntos num programa internacional chamado Prémio Duque de Edimburgo, que em Portugal se chama Prémio Infante D. Henrique, do qual sou o presidente honorário. Com o Príncipe Carlos tenho-me encontrado em várias ocasiões e tido conversas muito interessantes, nos aniversários dele, etc… Gostei muito da Camila, pareceu-me uma mulher interessantíssima, inteligente e muito culta. Tivemos uma conversa muito interessante.

Quando é que esteve, pela última vez, num evento oficial da família real?
Em primeiro lugar, costumo estar nas reuniões do grupo de apoio ao Prémio Duque de Edimburgo. Convidam-me duas vezes por ano para encontros muito interessantes que acontecem no Palácio de St. James, em Londres, ou em vários outros palácios históricos. São pessoas que dão uma contribuição para o prémio. Neste caso, um senhor do Porto, muito simpático, pagou a minha contribuição vitalícia. Depois, há aniversários e casamentos de outras famílias, dos meus primos. A minha bisavó materna foi a princesa Isabel, filha de D. Pedro II do Brasil, uma senhora interessantíssima, mas esse lado da família não é assim tão numeroso. O meu bisavô paterno foi o rei D. Miguel e descendem dele os reis da Bélgica, os grã-duques do Luxemburgo, os príncipes do Liechtenstein e mais uma dúzia de famílias reais europeias. É curioso porque se criou uma rede de solidariedade familiar muito forte, as pessoas gostam muito de se encontrar e de conviver.

Foi convidado para o casamento do príncipe Harry?
Não.

Mas estava à espera de ser?
Não. Pessoalmente, não conheço a lista de convidados, mas imagino que seja muito mais pessoal do que política. No casamento do príncipe herdeiro, a lista foi sobretudo política, com governantes, Commonwealth, casas reais reinantes e com os amigos pessoais. Neste, julgo que será muito mais à base de relações pessoais. Não estou a ver a família a convidar figuras políticas, provavelmente porque a rainha achou que o casamento devia ser mais familiar.

Isso por ser o casamento do número seis na linha de sucessão, certo?
Sim, não tem peso nenhum. Tem um peso mediático muito simbólico pelo facto da rapariga ser de origem africana, mista. Isso tem um impacto muito grande em todas as comunidades que não são de ascendência europeia. Imagino que estejam muito contentes com isso. Os ingleses têm tido a habilidade de aproveitar circunstâncias que, à primeira vista, saem fora do comum e de lhes dar uma mensagem política inteligente.

Nesse sentido, acha que a família real faz um balanço positivo deste casamento?
Creio que sim. Quer dizer, conversando em particular com ingleses, percebe-se que há muitos, obviamente, muito chocados. Aliás, nesse aspeto, os ingleses nunca foram conhecidos pela sua tolerância. Tudo o que não seja inglês… Mesmo que fosse uma rapariga escocesa já iam discutir, quanto mais uma americana, meio africana. Acho eu. Lembro-me de uma história de um amigo cujo filho ia casar com uma escocesa. E ele dizia: “Esta coisa de o meu filho ir casar com uma mestiça”. “Mestiça?” “Sim, com uma escocesa”. E isto só porque não era bem inglesa.

Portanto, se não fosse Meghan Markle, este casamento passaria mais despercebido.
Estes casamentos são um ótimo negócio para Inglaterra, não é? Vão imensos turistas, vendem-se imensas lembranças, fazem-se selos de correio. Mas acho que estão a fazer um esforço para não dar a impressão de que, por ser com esta, o casamento é menos solene, para não parecer que há menos entusiasmo. Ou então, foi o governo a dizer que convinha aproveitar o momento para distrair as pessoas do Brexit. Para as relações com os Estados Unidos, por exemplo, o casamento é certamente muito bom. A grande preocupação do Estados Unidos é que não haja qualquer tipo de discriminação e isto mostra uma modernidade da Inglaterra, por aceitar bem um casamento destes. Podia ser mais chocante, mas até está dentro de uns certos limites, apesar de tudo.

Mas hoje as pessoas já olham para as famílias reais de forma diferente. Acha que a casa real britânica tem contribuído para esta mudança de perspetiva?
Há uma caricatura muito engraçada de uma artista inglesa em que se vê o príncipe Philip desmaiado no chão e a rainha a dizer: “Philip, querido, ela é Markle, não é Merkel”. Acredito que deve ser bastante chocante para a rainha e para o príncipe Philip que o neto case com uma rapariga divorciada e já com uma história de vida complicada. Mas aceita-se. Porquê? Porque faz parte da cultura da nossa época. E o que acontece é que, em todas as alturas, as famílias reais se adaptaram sempre aos valores culturais da sua época, tentando moderá-los, tentando dar exemplos de outro tipo de comportamento mais clássico. Mas acabam por se adaptar e isso é uma constante histórica. Na Idade Média, os reis participavam nas batalhas, porque tinham de ser guerreiros. Na Renascença, preocupavam-se muito com a cultura, com o progresso e com a ciência, eram os valores da época. Hoje em dia, qual é o valor aparentemente mais fundamental? É a democracia. Então as famílias reais fazem casamentos muito democráticos. Também aconteceu na Suécia e na Noruega. A própria rainha de Espanha é um exemplo. Até agora, a força e o prestígio da instituição monárquica tem sabido ultrapassar problemas que surgiram, às vezes por falta de preparação das rainhas e dos príncipes que casam com elas. Já o marido da rainha da Holanda, o príncipe Bernardo, teve um problema muito complicado porque recebeu dinheiro de uma indústria americana para favorecer a compra de uns aviões. A reação dos holandeses foi: “Coitada da rainha que tem de aturar a estupidez deste marido”.

Considera então que a monarquia britânica soube lidar com essas transformações.
Há um filme chamado “A Rainha” que retrata isso muito bem. O facto de a população dos países onde há monarquias vibrar imenso e sentir-se muito próxima dos problemas das famílias reais mostra exatamente a importância da instituição. Ninguém  fica muito preocupado se a filha do Presidente da República se divorcia, por exemplo. No entanto, existe uma ligação afetiva que dá uma face humana ao Estado e que nos leva a considerar o Estado não só como aquela máquina dos políticos e dos cobradores de impostos, mas com qualquer coisa de humano. Os presidentes inteligentes e competentes, como o nosso atual ou como foi o general Ramalho Eanes, sabem interpretar isso e sabem perceber que o que o povo quer de um presidente é que ele tenha o comportamento de um rei.

Voltando à comparação com o divórcio da filha de um presidente, porque é que há menos tolerância? É porque a monarquia está intrinsecamente associada a determinados valores e a república não?
Por um lado sim, é isso. Por outro lado, porque é uma ligação familiar. Os povos conhecem os seus reis desde sempre. São muitas gerações, em geral. Qual é o inconveniente principal das monarquias? É exatamente essa ligação afetiva muito forte que, quando as coisas correrem mal, causa também perturbação e infelicidade às populações. Houve, recentemente, o caso de uma monarquia em que as coisas correram muito mal, o Nepal. Aparentemente, tinha havido ali um assassinato dentro da família real, foi um drama enorme e o país acabou por cair nas mãos dos maoistas. São casos extremamente raros. O Japão tem uma monarquia de 2000 anos, com a mesma dinastia, e nunca teve um drama com a família real. Pelo menos, que se saiba. Deve ter havido mas foram abafados. Quando as coisas correm mal, como foi o caso da princesa Diana, há um drama nacional. Nós temos dramas parecidos, mas com o futebol.

Mas, para alguém que tinha entrado em cena há relativamente pouco tempo, a princesa Diana teve um grande impacto, interferindo mesmo na relação dos britânicos com a Rainha. Na história das monarquias europeias, há um pré e um pós princesa Diana?
Depois desse drama, houve uma sondagem em que se perguntou ao povo inglês se, caso a Inglaterra se tornasse numa república, quem é que seria o candidato mais provável. O segundo foi o Richard Branson e o número um foi o príncipe Carlos. De facto, a popularidade do príncipe Carlos não teve nada a ver com aquilo que veio nos jornais. Os jornais estiveram muito hostis contra ele, mas na verdade fabricaram muito o drama. Eram dominados por grupos económicos e o que aconteceu foi que a alta finança inglesa estava muito incomodada com as posições que o príncipe Carlos estava a assumir em defesa dos mineiros, da arquitetura rural e da justiça e fizeram aquela campanha toda para desestabilizá-lo. Ele também se prestou, obviamente. Hoje, toda a imprensa quer que ele abdique e seja o filho, mas acho que isso não vai acontecer.

Esteve no casamento de William, em 2011?
Não. Casamentos de famílias reais fui ao da Holanda, Luxemburgo, Bélgica, Marrocos, Jordânia e de outras famílias reais não reinantes na Europa, da Áustria, Baviera. É onde estão os nossos primos, os familiares mais chegados. Ah, e da Dinamarca, sou muito amigo da família real dinamarquesa.

Imagina, nestes momentos, como será quando um dos seus filhos casar?
Atenção dos media vai haver, de certeza. Impõe-se também saber se o casamento é em Portugal ou no estrangeiro, porque, normalmente, os casamentos são a convite da família da noiva. O importante para eles é que seja um casamento equilibrado, com pessoas do mesmo meio cultural e, sobretudo, que haja uma identidade espiritual, fundamental para um casamento ser feliz. Os outros aspetos são menos importantes. Quando o marido ou a mulher têm vergonha de coisas que o outro faz, porque acha que é ridículo ou que é possidónio, ou que dá mau aspeto, já é um problema cultural. Pelo que tenho visto a nível internacional, quando o nível cultural é semelhante, a raça tem muito pouca importância. Vejo casamentos muito felizes de europeus com africanos ou asiáticos, porque conseguiram ter uma identidade e valores espirituais semelhantes, mesmo com religiões diferentes. Aliás, acho que hoje em dia o racismo tem muito pouco a ver com a raça propriamente dita, tem a ver com a cultura. Lembro-me, por exemplo, do tempo português em Angola. Havia casamentos mistos que funcionavam lindamente bem porque, precisamente, eram pessoas que tinham o mesmo nível cultural, fosse ele popular ou erudito.

É essa a expectativa que deposita nos seus filhos, que escolham alguém do mesmo nível cultural?
Exatamente.

Tendo em mente a possibilidade de não casarem com aristocratas.
Pois, exatamente. O importante é que os maridos e as mulheres dos meus filhos percebam que, ao entrarem na nossa família, assumem obrigações e que não podem fazer o mesmo que fariam se estivessem noutra família qualquer. Têm que ter uma certa responsabilidade para com o país. Se estivessem noutra família qualquer, a prioridade era somente ter sucesso na vida, sem se preocuparem muito com outras causas. No nosso caso, espero que mantenham esse sentido de responsabilidade para com Portugal e para com o futuro do país.

E está preparado para a possibilidade de ser uma atriz ou um ator de Hollywood?
Absolutamente, não. Deve ser muito problemático ver a mulher ou o marido na cama com outro, deve ser muito complicado. E deve ser quase como estar casado com um piloto de linha aérea, sempre fora de casa.

Quem é que acha que vai casar primeiro?
Não faço ideia, só espero que não sigam o exemplo do pai.

Imagina os portugueses a acompanharem esse momento, tal como agora vemos no Reino Unido?
Bem, o nosso casamento teve mais sucesso do que alguns casamentos reais europeus. Todas as pessoas que convidei vieram, o que foi um problema. Contava que muitos não viessem, pela distância geográfica ou por opções políticas, e acabei por ter 40 presidentes de câmara e metade eram do Partido Comunista, não estava à espera que viessem assim tão entusiasticamente. Depois, também vieram convidados de países longínquos, da Nova Guiné, da Austrália, de África. Tivemos de fazer uma receção no claustro dos Jerónimos, depois da missa. Na parte de fora, havia imensa gente a ver. Com a ajuda de amigos, organizou-se uma festa de rua com comidas, bebidas e música. Tínhamos ecrãs grandes lá fora. Não digo que vá ser um casamento tão espetacular como o nosso… Não faço ideia, tudo depende da situação. Se os portugueses estiverem em crise, então a festa vai ser muito grande. Se estiverem todos muito bem, de barriga cheia, então talvez seja um pouco mais discreta.

Mas acha que a mobilização será a mesma?
Creio que sim. Também depende do orçamento, não é? Não vou convidar tanta gente. No nosso estiveram 3000 e depois houve os que não tinham sido convidados. Falsificaram convites. Houve situações muito cómicas. Pessoas que eram conhecidas dos jornais e que os seguranças, por isso, deixaram passar, mas que não tinham sido convidadas, receberam convites falsos. Houve quem tivesse falsificado convites e mandado para algumas personalidades conhecidas, entre as quais a Lili Caneças. Eu não conhecia a senhora, não tinha razão nenhuma para convidá-la. Na altura, vieram perguntar-me o que fazer e eu deixei entrar. O Mário Soares foi o último a entrar, ainda o recebi. Quando cheguei, estava com o meu irmão Miguel. Vínhamos num carro descapotável e com uma escolta voluntária dos alunos do Colégio Militar. Na altura, havia uma campanha para o uso do cinto de segurança e perguntaram se podiam usar uma imagem para essa promoção. Dissemos que sim, claro. Mal entrámos no carro, pusemos o cinto. No final, as pessoas ficaram muito ofendidas porque acharam que tínhamos vendido as imagens.

Fonte: https://observador.pt/especiais/e-d-duarte-estaria-preparado-para-ter-uma-nora-de-hollywood-absolutamente-nao/

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publicado às 18:48

D. Duarte Pio de Bragança: “Desde 1910 que a moral republicana só funciona em ditadura”

por Blog Real, em 28.04.18

Apesar de ser um adepto da democracia e da liberdade, D. Duarte Pio, duque de Bragança e chefe da Casa Real Portuguesa, defende que o país seria mais livre e menos corrupto se voltasse a ser governado por um regime monárquico. Ou seja, por ele, dado que é o herdeiro do trono português. “Há uma tolerância geral no país para a pequena corrupção. E isto tem que ver com a falta de motivações morais e espirituais.” Sobre o atual chefe de Estado português chega a dizer: “O Presidente Marcelo atua como um rei, pela sua inteligência política”. E revela que um Presidente dos Estados Unidos chegou um dia a incentivá-lo a candidatar-se à Presidência da República. Uma conversa onde fala ainda do seu amor, Isabel de Herédia, das razões para uma paternidade tardia, e em que ficamos a saber que até se ri das caricaturas que fazem dele. “Desde que não me ponham gago. Que é uma coisa que eu não sou.” Para ouvirem neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Pode ouvir 

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publicado às 21:24

"Coche de D. João no Brasil está em Lisboa. Voltou junto com o rei"

por Blog Real, em 15.04.18

Diretor do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, Paulo Knauss de Mendonça esteve em Lisboa para combinar o empréstimo de retratos de D. João VI para uma grande exposição dedicada aos 200 anos da sua aclamação como rei, que aconteceu no Brasil em 1818. O historiador considera o monarca fundamental para que até hoje o Brasil seja um grande país.

Está em Lisboa como diretor do Museu Histórico Nacional a preparar uma grande exposição sobre os 200 anos da aclamação de D. João VI no Rio de Janeiro. O que tem estado a pedir aos museus portugueses?

Estamos preparando uma exposição para celebrar a memória de João VI no Brasil, apresentando o conjunto de retratos

do rei. A exposição vai chamar-se O Retrato do Rei D. João VI e pretende reunir o maior número de retratos de D. João, talvez mais de 40. D. João VI tem uma relação muito particular com o mundo dos retratos porque não só ele esteve no poder muito tempo, mas foi uma época em que devido às condições políticas fez que ele caracterizasse o seu governo com uma multiplicidade de programas artísticos. Primeiro em torno do Palácio da Ajuda, aqui em Portugal, depois um programa cultural que ele tenta de-senvolver no Brasil quando chega, e por fim o programa artístico que vai ser desenvolvido depois do retorno para Portugal.

Há quadros em Portugal essenciais para essa exposição?

Há vários quadros que estamos pedindo, também para apresentar num primeiro momento a biografia dele, retratos dele criança, jovem, regente, rei e já depois do período das cortes, aqui de volta, assim como quadros que sejam capazes de representar a história política do reinado, que se verifica sobretudo no caso dos retratos com combinação de insígnias que ele carrega no peito. E depois também há a dimensão artística dos retratos, não só a questão do artista com as suas variantes, o rei equestre, pedestre, em trajes militares, etc., mas também o facto de D. João VI ter sido pintado por artistas de escolas muito distintas.

Paulo Knauss de Mendonça

Em que instituições portuguesas é que estão esses quadros?

No Museu de Arte Antiga, no Museu dos Coches, no Palácio da Ajuda, no Palácio de Queluz, também em Mafra. E no Brasil também estamos a recolher retratos que estão em diferentes instituições. Claro que no Museu Histórico Nacional temos alguns retratos emblemáticos como o do casal real de mãos entrelaçadas, Carlota Joaquina e D. João, que é uma representação raríssima. Mas além disso exibiremos retratos que estão em coleções particulares e em outros museus como o Imperial de Petrópolis, o Museu Nacional de Belas Artes, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Paranaense. Tam-bém estarão lá retratos que pertencem à Embaixada de Portugal.

Haverá um retrato surpreendente?

A grande surpresa da exposição vai ser uma tela esquecida de D. João que encontrámos e a exposição vai terminar justamente num ateliê aberto em que essa tela vai estar a ser restaurada. É uma tela de grande formato, e que na verdade é a cópia de uma outra de um pintor italiano feita no início do século XIX em Portugal e que foi para o Brasil com o conde da Barca que encomendou a cópia. A grande diferença é que é um retrato de D. João com as plantas do Palácio da Ajuda e uma estátua de Minerva e ao lado uma janela, e na tela original vê-se um ângulo da Praça do Comércio, com a estátua de D. José, e na cópia brasileira, no lugar da paisagem lisboeta está a paisagem carioca com a Baía do Guanabara com o Pão de Açúcar, que por coincidência era a vista do palacete do conde da Barca. O extraordinário desta história é que essa tela foi feita por um artista brasileiro pardo, que terminou sendo envolvido na revolução de 1817 de Pernambuco como pintor dos revolucionários e se salvou porque se agarrou a um retrato de D. João VI que tinha feito e quando chegou o governador enviado pelo rei ele mostrou que era só um pintor, não era um revolucionário, que do mesmo modo que tinha pintado cenários revolucionários também tinha pintado o rei e com isso obteve clemência. Não conhecemos mais da história do autor a não ser por uma tela de 1820 que está em Portugal, no Palácio da Brejoeira .

D. João VI foi extraordinário, não tivesse sido ele e a mãe, D. Maria I, os primeiros monarcas a cruzar o Atlântico. É por isso que figura num quadro com uma paisagem lisboeta e noutro com uma carioca. Como historiador, que síntese faz do rei?

A primeira observação fundamental é o facto de que D. João e o seu governo atravessou épocas muito distintas. É um rei que se aclamou na América, o que já é uma originalidade absoluta mas que também passou incólume em certa medida pelo contexto napoleónico. E, como gosto de ressaltar, não é só um rei que conseguiu dar a volta a Napoleão com a migração da corte para o Rio de Janeiro mas também foi capaz de derrotar Napoleão em duas frentes militares: na Guiana Francesa e na Banda Oriental, o atual Uruguai. Isso numa geografia gigante, porque uma guerra foi feita na Amazónia e outra na região do Prata. São vitórias extraordinárias e que ressaltam a capacidade militar que D. João conseguiu implementar na sua temporada brasileira.

Banda Oriental que era parte de uma Espanha que tinha então um irmão de Napoleão como rei...

Certo.

A presença de D. João 13 anos no Brasil e o facto de o filho, D. Pedro, crescer lá e proclamar a independência sob a forma de império é decisiva para aquilo que o Brasil é hoje: um país unido, que não se fragmentou como a América espanhola?

Não há dúvida. D. João para o Brasil representa o processo de centralização da metrópole. Não só ocorre a migração da corte mas de todo o aparato administrativo colonial, que passa a ser centralizado no Rio, e isso fez que as colónias se reunissem todas no Rio de Janeiro e confirmou uma unidade não geográfica mas política e administrativa no Brasil, que até então não existia porque todas as capitanias reportavam diretamente a Lisboa e a partir da migração da corte é que ocorre a centralização do regime administrativo das terras brasileiras. A unidade territorial que configura a unidade política do Brasil enquanto Estado nacional emerge do governo de D. João VI. Talvez aí a grande questão que se tenha colocado para a afirmação da autoridade de D. João é que as cortes portuguesas não migraram juntas, e foi aí que o reinado enfrentou o seu dilema principal e que terminou conduzindo-o a retornar a Portugal.

No seu museu há um coche mas não é de D. João. É de quem?

É de D. José, o irmão mais velho de D. João. É um coche com uma história inusitada porque foi comprado como carruagem funerária e ao chegar ao museu descobriu-se que tinha uma pintura por baixo e pôde identificar-se que era de D. José, o príncipe que possivelmente se teria tornado rei antes de D. João e que o destino fez que morresse cedo.

O coche que D. João usava no Brasil...

Está aqui no Museu dos Coches, voltou do Brasil junto com o rei.

Este Museu dos Coches em Lisboa é mesmo único no mundo?

Com certeza! A coleção é espetacular e é um exemplo de que a aproximação do Brasil a Portugal continua a ter nos nossos dias a possibilidade de representar uma solução positiva, porque afinal de contas é a coleção de coches mais linda do mundo e que ganhou como sede o edifício de um arquiteto brasileiro premiado internacionalmente.

Fonte: https://www.dn.pt/artes/interior/coche-de-d-joao-no-brasil-esta-em-lisboa-voltou-junto-com-o-rei-9260424.html

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publicado às 14:25

Entrevista de D.Isabel de Bragança à Caras

por Blog Real, em 01.04.18

Atenta a todos os passos dos filhos, Afonso, de 22 anos, Maria Francisca, de 21, e Dinis, de 18, fruto do seu casamento com D. Duarte Pio, D. Isabel de Bragança acredita que é importante deixá-los seguir os respetivos caminhos, sem grandes imposições, conforme contou durante uma conversa que começou pelo propósito do encontro, a apresentação de um livro sobre o ritual do chá, Receitas à Volta do Chá, de Maria Ana Silva Vieira.
– O culto do chá implica um certo ritual, uma determinada rotina. Gosta de rotinas?
A minha vida não tem muita rotina, é um pouco atípica, mas há coisas que faço questão de ter, como tempo para mim, para me cuidar.
– Gosta dos rituais que o chá promove, como as conversas?
No dia a dia é complicado, mas acho importante que se cultive esse tipo de encontros. Hoje em dia, num mundo em que é tudo tão virtual e quase egoísta, é importante que façamos um esforço, porque no fundo o que interessa é estarmos uns com os outros. Acho que a felicidade das pessoas está em partilhar coisas com os outros: vivências, experiências.
– Como mãe, como contraria esse lado virtual que referiu?
Promovo situações em que nos sentemos à mesa a conversar ou fazendo passeios. Por exemplo, quase todos os anos fazemos uma viagem os cinco. E aquele que escolhe o lugar tem de o estudar e explicar aos outros. Acho que tem de haver um pouco de imaginação para ‘apanharmos’ os nossos filhos e amigos com estes ‘truques’ que nos fazem estar juntos.
– Esse será atualmente um dos maiores desafios dos pais: fazer com que os filhos se afastem de telemóveis e afins?
Acho que o grande desafio é dar-lhes condições e ensiná-los a voar e a serem eles próprios. Uma das coisas que os pais por vezes fazem – e eu também – é imaginar para os filhos algo que nem sempre se coaduna com o que eles querem... Tenho aprendido a estar atenta às tendências e aos gostos de cada um dos meus filhos, respeitando-os e encaminhando-os para aquilo que acho que também os pode fazer felizes.
– Para si, foi fácil encontrar esse caminho?
Há alturas mais fáceis e outras mais difíceis, faz parte. E é bom que os filhos queiram a sua independência e tenham ideias próprias. Tenho a sorte de os meus filhos serem pacíficos, mas nós também sempre respeitámos essa parte. Quando se força uma coisa é que podem surgir reações. Sempre lhes disse para estudarem o que gostavam e fazerem mestrado naquilo em que vão trabalhar. Não posso forçá-los a tirar um curso que eu possa achar interessante, pois o futuro é deles. Acho que hoje em dia o grande desafio é não deixar de exigir mas ao mesmo tempo trabalhar na autoestima, para que eles façam coisas com as quais se sintam bem e capazes.
– Eles ainda estão muito ligados a si ou já está cada um no seu caminho?
Aos bocadinhos, vão seguindo as suas vidas. Graças a Deus, falamos muito, e essa é a minha maior alegria. Conversamos muito e talvez por isso seja tudo tão pacífico. Temos de os deixar voar e cair. Ninguém cresce sem sofrer.
– Agora já tem cá os três...

Sim, a minha filha estava em Roma mas já voltou.

Fonte: Caras

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publicado às 00:06

Entrevista de D.Duarte de Bragança ao SAPO 24

por Blog Real, em 11.12.17

O S.A.R, Duque de Bragança Dom Duarte Pio recebeu o SAPO 24 no coração de Lisboa, em pleno Chiado, na Rua Duques de Bragança, num prédio a uns metros da Fundação Manuel II, uma instituição particular, sem fins lucrativos, de assistência social, educacional e cultural, com ações no território português, nos países lusófonos e nas comunidades portuguesas em todo o mundo.

Recebeu-nos a servir, ele mesmo, um chá honeybush, chá medicinal sul-africano. Bebemos antes de arrancar com uma conversa de cerca de duas horas, uma conversa que terminou com Dom Duarte Pio, de novo na cozinha, a fazer uma tosta de queijo (açoriano) e a servir um copo de vinho. A que se seguiu mais uma hora de conversa.

Se ao início, fomos apresentados a Dom Afonso Maria, filho mais velho, que nos abriu a porta, no final cumprimentámos Dom Dinis Maria, o filho mais novo. A filha Maria Francisca esteve presente em relato sobre a sua presença no baile de debutantes em Paris em que foi apresentada à sociedade. A mulher, Isabel Herédia, veio à conversa quando se falou de carros elétricos ou não conduzisse ela mesmo um.

Numa sala com paredes decoradas de estantes com livros, pontificava ao centro, numa mesa, um pato embalsamado, que sobressai entre livros, conversou-se sobre dívida pública, incêndios, reordenamento do território, da questão catalã, Portugal, a preservação da língua portuguesa na diáspora e do papel que D. Duarte, passado e presente, de Timor a Angola, das monarquias e da República.

Muita da ação e intervenção de D. Duarte “mora” fora de Portugal. Exemplifica com Timor-Leste, Síria, África e Ásia. Suspira um lamento: não ter sido mais interventivo no seu próprio país.

Olha para Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e reconhece que é esse o papel que se espera de um rei.

No seu discurso do jantar dos Conjurados (jantar que antecede o dia 1 de dezembro) tocou em vários assuntos.

... Falo todos os anos sempre de assuntos de interesse geral e de outros temas mais de interesse dos monárquicos. Tem a ver com uma certa cultura política que interessa aos monárquicos ou aos que manifestam interesse no tema e tem dúvida se são republicanos ou não.

"MARCELO TEM FEITO UM PAPEL EXTRAORDINÁRIO, RECONHECIDO PELO PAÍS TODO."

Ainda há pessoas com essas dúvidas?

A maioria dos portugueses não tem uma opinião segura. A sondagem do centenário da República, 40% disse não se sentir republicano. Uma sondagem que custou 10 milhões de euros e nunca foi divulgada. A sondagem anterior, 29% eram favoráveis a um rei em vez de Presidente da República.

O papel do presidente da República é o que defende que deveria ser o do rei. Marcelo Rebelo de Sousa faz o que gostaria de fazer?

Faz. Como fez o general Ramalho Eanes. Alguns presidentes da República perceberam que o papel que o país quer do chefe de Estado é o papel de Rei. O público suspeita sempre que um presidente de origem partidária tenha simpatia com o seu partido. A independência política é posta em causa, com exceção de um militar, que não tem um partido por detrás. Marcelo tem feito um papel extraordinário, reconhecido pelo país todo.

No discurso falou dos incêndios e de ordenamento do território.

Gonçalo Ribeiro Telles antes de entrar para o governo [em 1976 com Mário Soares e entre 1981 e 1983 com Francisco Balsemão] explicava como deveria ser a política de desenvolvimento rural e política florestal. Na altura era uma utopia. Depois houve consenso sobre posições tomadas [reserva agrícola nacional e ecológica]. O pinhal de Leiria, com 700 anos, é do Estado e nunca tinha ardido, mostra algo de profundamente errado na nossa política florestal. Não se pode pedir aos proprietários, por norma gente sem recursos e idosa, que limpem as florestas quando não há compensação económica. Tem que haver uma gestão associativa da floresta com o Estado a ajudar nos custos de manutenção e atividades económicas rentáveis no Interior que atraiam populações.

Que atividades económicas. Agricultura e/ou indústria?

Ambas. Fixa populações. A indústria pelo país torna muitas vezes a agricultura como uma atividade complementar. Há concelhos em que a única atividade remunerada advém das câmaras municipais.

"HOJE ESTAMOS A IR PELO MESMO CAMINHO COM UMA DÍVIDA PÚBLICA DE 130% EM RELAÇÃO AO PIB. EM QUALQUER EMPRESA SERIA UMA FALÊNCIA."

Ainda em relação aos incêndios...

Os bombeiros, gente muitíssimo dedicada que põe em risco a vida são indispensáveis. Agora, há qualquer coisa de muito errado na estratégia de combate aos incêndios. As Forças Armadas estavam proibidas de participar no combate porque, segundo a versão de governos anteriores, é uma concorrência desleal contra as empresas privadas de combate aos incêndios florestais... E depois as leis. Os nossos incendiários são considerados tontinhos. Poucos são presos. Noutros países são tão graves como os assassinos.

A questão financeira do país também foi abordada. Revisitando, como viu a intervenção do FMI. Teria feito diferente?

Foi lamentável que se tivesse chegado a essa situação. Não sei se havia alternativas para a irresponsabilidade de governos anteriores que levaram o país a essa situação de falência. Hoje estamos a ir pelo mesmo caminho com uma dívida pública de 130% em relação ao PIB. Em qualquer empresa seria uma falência. Há possibilidade de corrigir, mas não se pode gastar o que não se ganha e não se tem. Temos que aproveitar uma altura em que o país está um pouco melhor, em que há uma certa recuperação, para pagar a dívida e não aumentar.

"EM PORTUGAL VOU FAZENDO O QUE POSSO. AS CÂMARAS MUNICIPAIS CONVIDAM-ME E À MINHA FAMÍLIA PARA ATIVIDADES CULTURAIS. TODAS, DESDE O PARTIDO COMUNISTA AO CDS."

Deveríamos aproveitar para pagar a dívida pública?

Na Fábula de La Fontaine, a formiga trabalhava e a cigarra cantava no verão e morria à fome no inverno. Somos um bocado a cigarra. É síndrome republicano. O que o que importa são os próximos 4 anos, eleitorado contente e ganhar eleições. Nas monarquias, mesmos aquelas em que aparentemente o rei não tem nada a dizer, têm uma grande influência junto dos políticos. O rei da Bélgica, Suécia, Dinamarca e Reino Unido, conversam com os políticos, ajudam a criar consensos e acordos e previnem contra a corrupção. Sobretudo estão preocupados que os netos herdam um país em condições. Os republicanos têm, normalmente, uma visão de curto prazo.

Falemos do D. Duarte. O que faz e por onde anda?

Em Portugal vou fazendo o que posso. As câmaras municipais convidam-me e à minha família para atividades culturais. Todas, desde o partido comunista ao CDS. Entre 50 a 60 convites por ano. Participo em várias organizações, desde assistência social, ambiental.

E fora de Portugal?

Nos países da CPLP, todos eles, no Brasil a minha importância advém de ser descendente da Rainha Isabel que foi quem libertou os escravos... tenho tido experiências interessantes. Desde governadores angolanos que me convidam porque a minha presença ajuda nas suas relações públicas porque há uma grande popularidade em Angola, Moçambique e Guiné em relação ao Rei de Portugal.

A sua relação a Timor é próxima. A que se deve?

O parlamento timorense deu-me a nacionalidade e o governo um passaporte diplomático. É muito prático quando vou, por exemplo, a Angola. Perguntam-se sempre: passaporte encarnado (risos)?

Mas é só para ter um passaporte?

Não. É uma grande satisfação participar na vida do país. Em 1974, no começo do 25 de Abril, fui pela primeira vez e fiquei impressionado com o sentido de tradição do povo e respeito pelos antepassados. Durante a ocupação Indonésia, com o Ramos-Horta criámos o movimento internacional de apoio a Timor com a ajuda do senador Kennedy e dos estudantes portugueses em Rhode Island. Em viagem à Indonésia, com o Bispo D. Ximenes Belo e o Mário Carrascalão, convencemos o governo indonésio que tinha de mudar de atitude. Não tinha aconselhado que fizessem o referendo. Fizeram e correu mal.

Falou das tradições do povo timorense. Não há em Portugal?

Não é tão profundo. Ainda hoje o timorense no interior se lhe perguntarem se são portugueses, dizem que sim, são portugueses. São timorenses, mas também portugueses. Foi um acordo tomado pelos seus antepassados com os reis de Portugal. É uma aliança de 500 anos.

Portugal republicano esqueceu essa diáspora na Ásia?

Naquela região há muita gente ligada a Portugal que não ligamos nenhuma. Na Birmânia, há cidades portuguesas. Na Tailândia, em Banguecoque, há quatro paróquias portuguesas. Há 10 mil católicos descendentes de portugueses. Em Ceilão é fortíssima a nossa presença. No ano passado, com o apoio da Fundação Manuel II e do governo timorense organizou-se, em Malaca, o primeiro Congresso dos lusodescendentes da Ásia. Para o ano será em Timor.

Está mais virado para a CPLP do que para Portugal?

A Fundação Manuel II colabora para a preservação da língua portuguesa no mundo e em programas de assistência rural em África. Somos aliados de uma das fundações observadoras da CPLP. E tenho tentado por o Brasil (com uma capacidade e conhecimento cientifico aproximado dos Trópicos) a colaborar com África e Timor. A Fundação Padre Anchieta, governo do Estado de S. Paulo, está a colaborar com o envio de filmes portugueses. Faltam programas em português na televisão timorense.

Mas o governo português não disponibiliza?

Disponibiliza através da RTP Internacional e RTP África. Mas a RTP Internacional está mais virada para a Europa e para as comunidades que aqui vivem e gostam mais de futebol (risos).

"A MELHOR SOLUÇÃO SERIA A CATALUNHA SER UM REINO UNIDO COM A ESPANHA."

D. Duarte não gosta de futebol?

Gosto. Da festa e do público. Do jogo que é estimulante. Acho que o desporto devia ser amador, sei que é utópico... Os clubes profissionais, reconheço, possibilitam a prática desportiva. Mas o desporto profissional é uma contradição. Não deve ser um circo. Deve ser uma atividade de estímulo, em que todos deviam concorrer sim, mas seguindo o exemplo grego e o renascimento do espírito olímpico.

Mudando de assunto: A questão catalã.

A cultura tem para alguns povos mais importância que os fatores económicos e políticos. A Escócia não tem interesse económico e político em abandonar o Reino Unido. No caso de Catalunha é sobretudo a questão cultural. A maioria aparentemente não é a favor da separação de Espanha. Mas a maioria não foi votar.

Que solução defende?

Tenho sugerido que a melhor solução seria a Catalunha ser um reino unido com a Espanha. Daria toda a vantagem cultural e espiritual de ser um reino e não criava os traumatismos de uma separação política com Espanha. Infelizmente os independentistas catalães são muito radicais e seguem aquela linha desastrosa da 1ª República catalã em que perseguiram padres e católicos. Esse radicalismo receio estar muito presente no movimento independentista catalão.

"NÃO SE PODE CONTINUAR A FAZER ESSA CONFUSÃO ENTRE REPÚBLICA E DEMOCRACIA."

E o resto da Europa? Também assistimos a alguns movimentos...

Há movimentos culturais. Córsega, Bretanha, Itália do Norte, reinos de Nápoles, são uma revolta dos povos contra uma uniformização cultural que está a ser imposta. O país que dá o melhor modelo que deveria ser a União Europeia é a Suíça. A cultura de cada Cantão é muito respeitada. Há leis diferentes. E há Cantões em que se vota ainda por braço no ar. A Confederação Helvética não pertence à UE é porque consideram que põe em causa a própria identidade.

Há partidos europeus que defendem uma monarquia constitucional. É esse o seu modelo?

É o único que existe hoje. As monarquias europeias, ocidentais, asiáticas, como a Tailândia e Camboja, são monarquias democráticas. Marrocos é mais democrático que alguns países do Magrebe. Muitas são mais democráticas que as repúblicas na mesma zona. Não se pode continuar a fazer essa confusão entre república e democracia. O Dr. João Soares disse muitas vezes que a maior parte das monarquias são mais democráticas que a maioria das repúblicas.

O único aspeto em que uma república é mais democrática que uma monarquia é simbólico: ter um chefe de estado eleito. Só que antes é escolhido pelos partidos. Se não o for, não consegue.

"[DOM AFONSO] ESTÁ MENTALIZADO QUE ESTÁ AO SERVIÇO DE PORTUGAL. TODOS ELES ESTÃO."

Assiste-se hoje a uma renovação da própria monarquia. Os príncipes ingleses e espanhol não casaram com princesas?

É consequência do espírito das monarquias. Os reis tentaram ser o símbolo da sua época. Na Idade Média estavam na frente das batalhas, na Renascença eram os defensores do progresso, cultura e ciência. E hoje, o único valor da nossa época é a democracia. Por isso, os príncipes fazem casamentos democráticos.

O seu filho D. Afonso está preparado para a sucessão?

Está mentalizado que está ao serviço de Portugal. Todos eles estão. Para além de se governarem economicamente têm sempre que contar que o país pode precisar deles. Agora, como é que o país quer ou quererá, não sei. Pode ser como eu, fazendo diplomacia complementar à diplomacia do Estado, na divulgação da língua portuguesa. Ou pode ser que o povo português queira o meu filho como chefe de Estado.

"UM EUROPEU SER ANTIMONÁRQUICO É UM INSULTO ÀS MELHORES DEMOCRACIAS EUROPEIAS QUE SÃO MONARQUIAS."

Tal implicaria uma alteração constitucional?

É. A Constituição da República proíbe que se coloque em causa a forma republicana de governo. É uma frase mal colocada porque o que se põe em causa é uma forma republicana de chefia de estado. E em Portugal o presidente da República não governa. Os reis reinam, mas não governam. São necessários dois terços dos deputados para mudar.

Os deputados teriam de mudar o sistema em si. Acredita?

Poderá mudar no dia em que o nosso parlamento for verdadeiramente democrático e não tiver preconceitos ideológicos antimonárquicos. Um europeu ser antimonárquico é um insulto às melhores democracias europeias que são monarquias. Países nórdicos, Bélgica, Luxemburgo, Reino Unido. Não são menos democráticos que Portugal. São até mais porque não tiveram interrupções nas suas democracias. A única monarquia europeia que viveu um período pouco democrático foi a Itália de Mussolini.

Sente falta de um partido monárquico no Parlamento?

O PPM [Partido Popular Monárquico] foi um partido sério e útil com Ribeiro Telles e Henrique Ruas. Pela primeira vez debateu-se a nível nacional a questão monárquica e introduziu a ecologia. Hoje não faz muito sentido quando há monárquicos em todos os partidos. Não se pode contestar o direito de um partido ter no seu programa ideias monárquicas.

Teria que começar na Assembleia da República?

Por aí acho que não se vai lá porque quase todos os monárquicos têm outras opções importantes para eles. Por isso acham preferível apoiar outros partidos.

Olhando para trás arrepende-se de algo que fez ou que não fez?

Arrependi-me de algumas iniciativas políticas que podia ter tido e não tive, foram oportunidades perdidas. Podia ter sido mais interventivo.

"FUI ÚTIL LÁ FORA. AQUI OS POLÍTICOS NÃO ME OUVEM MUITO."

E de que se orgulha de ter feito ou ter contribuído?

As grandes iniciativas políticas... as negociações em Timor. O acordo entre o movimento de libertação de Cabinda e o governo angolano. A negociação que lancei na Síria, embora não tenha corrido muito bem porque os movimentos mais radicais islâmicos não quiserem participar. Provavelmente os movimentos moderados e o governo sírio [de Bashar al-Assad[ vão seguir a proposta. Na altura concordaram com um governo de unidade nacional e em retirar os privilégios ao partido Baath. Não impor uma democracia totalmente livre, porque seria perigoso, mas sim de consensos.

Foi mais interventivo fora de Portugal. Lamenta?

Fui útil lá fora. Aqui os políticos não me ouvem muito. Não lamento. Recordo-me da minha proposta para o Ultramar em que propus uma espécie de Commonwealth. Organizei uma lista de candidatos para as eleições de 1972. O Marcelo Caetano expulsou-me de Angola, fui também expulso de São Tomé onde estava a organizar uma lista de candidatos à Assembleia Nacional. Marcelo Caetano tinha razões que eram muito pouco patrióticas. Já tinha negociado com os EUA e África do Sul para a independência de Angola. Não era aquilo que interessava aos angolanos. Em 1975 tentei aproveitar as liberdades democráticas, mas fui impedido. Em São Tomé fui expulso três vezes.

Fonte: 24.sapo.pt

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Com a fundação do Prémio Infante Dom Henrique, do qual S.A.R. o Duque de Bragança além de membro fundador é Presidente de Honra, Portugal tornou-se o primeiro país europeu de língua não inglesa a adoptar o programa de "The International Award for the Young People".
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Por vontade d'El-Rei D. Manuel II, expressa no seu testamento de 20 de Setembro de 1915, foi criada a Fundação da Casa de Bragança em 1933, um ano após a sua morte ocorrida a 2 de Julho de 1932. 
O último Rei de Portugal quis preservar intactas as suas colecções e todo o património da Casa de Bragança, pelo que deixou ainda outros elementos para precisar o seu intuito inicial e legar todos os bens sob a forma do Museu da Casa de Bragança, "à minha Pátria bem amada"

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