Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Entrevista da Rainha D.Amélia ao jornal "O Século" em 1938

por Blog Real, em 06.04.19

Em 1937, na Exposição Mundial de Paris, o governo português convidou a Rainha D.Amélia explicitamente a visitar o Pavilhão de Portugal, convite a que a rainha acedeu. Mas não emitiu comentários sobre a situação portuguesa até conceder uma primeira entrevista à imprensa portuguesa, a Joaquim Manso, em Outubro de 1937 ao jornal "Diário de Lisboa". Seguia-se “O Seculo” através de Leitão de Barros. E um ano mais tarde, em 1939, seria Armando Boaventura a conduzir mais uma conversa com a monarca em Versalhes para o "Diário de Notícias".

Homem extravagante, com um acentuado gosto cénico, Leitão de Barros deixou-se esmagar pelo cenário do castelo, pelo hall esplendoroso, pelos quadros salvos pela condessa de Sabugosa, pelas fotografias da realeza europeia, uns conhecidos, outros “vagos soberanos de países distantes que não conheço”, pelo criado que lhe abriu a porta e pelo mordomo que o guiou. Desde o início da conversa, que começou pelas cinco horas da tarde e prolongou-se até às oito da noite, Dona Amélia controlou o rumo do diálogo. O próprio jornalista, numa admissão honesta, confessou não saber “como começou a conversa. Eu não disse nada”. A viúva de Dom Carlos tinha um papel e desempenhou-o perfeitamente, deslumbrando o repórter com algumas confissões e, à boa maneira saloia que quase sempre nos caracterizou ao longo do século XX, com o desvelo produzido no interlocutor pela facilidade com que se exprimia em português e pronunciava “Salazar” como se estivesse no Chiado e pelo apreço com que falava do nosso solarengo país.

Como em qualquer entrevista moderna, as intenções da soberana excediam a publicação de um relato frívolo, mero testemunho da vida que ainda lhe corria nas veias. Dona Amélia tinha uma agenda em mente e assumiu contas a ajustar, inclusivamente com o próprio jornal no qual Leitão de Barros colaborava. Leitão de Barros distinguiu “O Seculo” antigo (presumivelmente republicano e fortemente crítico da família real ou, por outras palavras, o jornal de Magalhães Lima e Silva Graça) de “O Seculo” actual. Dona Amélia concordou e sublinhou o seu apreço por João Pereira da Rosa, então director e proprietário.

Avançou depois para o seu legado. A propósito da remoção da Fábrica do Gás (o popular gasómetro) que fora instalada em 1886 junto da Torre de Belém, criticou veementemente os ministros da monarquia que, apesar dos seus esforços e das “horas e horas [que passara] apaixonada por essa maravilha da arte tão nossa”, tinham aprovado a instalação do monstro, que perturbava o conjunto cénico dos Descobrimentos. “Zanguei-me, esgotei influências, macei toda a gente, e nada!”, disse a Rainha. “Vejo agora que esse extraordinário ministro Duarte Pacheco a vai desafrontar!”

A mesma estratégia foi usada pela rainha para comentar um dos seus sucessos – a criação em 1892 do Real Instituto Bacteriológico de Lisboa, que se tornaria depois o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, com responsabilidades no combate e investigação de doenças infecto-contagiosas. Dona Amélia reivindicou para si a condução política do processo, uma vez mais contra a inércia dos políticos da monarquia. “Era uma vergonha, todo o mundo tinha já institutos com as ideias novas e nós estávamos parados”. A rainha conta o lobby que conduziu junto de um influente ministro (presume-se pela informação que seria José Dias Ferreira), encurralando-o numa carruagem de comboio, até este prometer que agiria. E, mesmo ao aceitar, este teria confessado aos seus pares, de acordo com a versão régia: “A Senhora Dona Amélia não pede dinheiro para toilettes, nem para viagens, nem para festas. Tem lá aquela mania do tal instituto. (…) Ao menos, enquanto faz isso, está entretida!”

A conversa seguiu o mesmo rumo, com a rainha a reivindicar para si a inspiração para as viagens reais à província (as expedições, como então se chamavam) e a intenção de imitar a viagem real inglesa à Índia com uma visita protocolar à África portuguesa. “O Paço murmurou: eram hábitos novos. E, nos jornais, tudo servia para nos ridicularizar”, contou.

O ajuste de contas não foi propriamente direccionado para jornalistas ou para políticos republicanos. Alguns teriam talento, admitiu Dona Amélia. “Olhe o Rafael Bordalo Pinheiro. A esse reconhecia-lhe talento – muito talento mesmo. E esse, quando nos atacava, fazia-o com arte. E nós não nos ofendíamos. El-Rei, artista como era, sorria. Outros... Enfim! Esquecer!” A rainha apontava o dedo à fraqueza da monarquia constitucional e dos seus líderes para amparar a Casa de Bragança.

Um último legado foi corrigido nesta entrevista, e Dona Amélia parece ter feito questão de o sublinhar com veemência – a partida para o exílio. Aos 73 anos, a rainha mantinha a combatividade de sempre e lembrou que, durante o seu reinado, só por uma vez obrigara alguém a desmentir um boato cruel. Qual? Os Braganças não tinham fugido para Gibraltar. Segundo a rainha, ao entrar nas embarcações da Ericeira a 5 de Outubro de 1910, a família real cuidara que se deslocava para o Porto. “E muito menos o iate tomou o rumo do sul por haver a bordo duas rainhas a chorar. Não! Honra à memória da rainha Maria Pia e justiça – só justiça – a mim. Não chorámos, não pedimos, não tivemos medo!”

Para lá dos remoques à história antiga, Dona Amélia usou a entrevista de Leitão de Barros para enviar nova mensagem a Lisboa, aproximando-se do regime português e das suas figuras na expectativa de um epílogo como o que veio a ocorrer em 1945, com o convite para a sua visita ao solo nacional. Para tal, Dona Amélia sabia exactamente o que dizer. Na verdade, já o ensaiara um ano antes, na conversa com Joaquim Manso, durante a qual fez questão de cumprimentar o presidente Carmona, "a quem devo atenções que muito me penhoram", e o "sr. dr. Salazar, que tanto admiro. Como os acontecimentos teriam seguido um rumo diferente se a monarquia, arrastada nas desesperadas lutas dos partidos, houvesse tido um estadista da sua têmpera a guardá-la, a fortalecê-la, a livrá-la de perigos". 

Neste novo ensaio com Leitão de Barros, Dona Amélia elogiou o ministro Duarte Pacheco e a “figura nobre do cardeal patriarca”, mas foi sobretudo para Oliveira Salazar que deixou os seus elogios mais prolongados. Lembrando a Leitão de Barros o seu tio Marques Leitão, que fora professor dos príncipes, Dona Amélia disse: “Tenho prazer em ver a continuação destas famílias, cujos chefes conheci de perto... no outro Portugal. Quis Deus guardar-me para assistir agora a este ressurgimento. É um sonho! Vocês são bem mais felizes do que nós fomos! Ah! Com este Salazar, com este Salazar, onde teria chegado El-Rei Dom Carlos I! Que Deus o proteja” 

No dia 8 de Dezembro, uma quinta-feira, “O Século” publicou a sua extensa prosa em três páginas, um privilégio que costumava ser guardado apenas para discursos do chefe de Estado. Ainda não satisfeito, repetiu exactamente o mesmo texto dois dias depois, na edição de “O Século Ilustrado”, com 16 páginas de fotografias. 

Leitão de Barros voltaria a dispor de um “exclusivo” com a rainha. No dia 1 de Setembro de 1951, já livre dos jornais e profundamente vinculado ao mundo da imagem e do cinema, o cineasta registou em filme algumas imagens do quotidiano da rainha em Bellevue. Cerca de um mês depois, Dona Amélia morreu. Tinha 86 anos.

Fonnte: http://ecosferaportuguesa.blogspot.com/2013/06/a-entrevista-diplomatica-e-pouco.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:26

Príncipe Real Luís Filipe - Um rei que não reinou

por Blog Real, em 23.03.19

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:57

Reportagem da "Ilustração Portuguesa" sobre a Rainha D.Maria Pia de Sabóia

por Blog Real, em 23.03.19

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Ver melhor aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:39

Juramento de D.Afonso como herdeiro do trono português no Diário de Notícias

por Blog Real, em 21.03.19

O DN de 19 de março de 1910 noticiou a cerimónia de juramento de D. Afonso como herdeiro do trono português.

"Como estava determinado realizou-se ontem a cerimónia de juramento de sua alteza o senhor D. Afonso como herdeiro do trono da nação portuguesa", assim começava a notícia que dava conta, sete meses antes da queda da monarquia em Portugal.

A cerimónia decorreu na Sé e o infante D. Afonso foi em cortejo pela ruas de Lisboa, num dia de sol. Jurou "manter a religião católica apostólica-romana, observar a constituição política da nação portuguesa e ser obediente às leis e ao rei". Após a cerimónia, em que também discursou o rei D. Manuel, o cortejo fez o percurso inverso por ruas com muito povo até ao Palácio das Necessidades. À noite, no Teatro de São Carlos houve espetáculo de gala, com muitos convidados.

 

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-mar-2019/interior/d-afonso-presta-juramento-como-herdeiro-do-trono-10697665.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:10

Capas da revista "Nova Gente" com os baptizados dos filhos dos Duques de Bragança

por Blog Real, em 25.11.18

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:38

Reportagem do jornal espanhol "ABC" sobre a visita do Rei Alfonso XIII a Portugal (1909)

por Blog Real, em 21.10.18

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:58

Aclamação do Rei D.Manuel II no jornal "ABC"

por Blog Real, em 11.08.18

 

 Ver Melhor Aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:09

Rei D.Manuel II e Rei Alfonso XIII no jornal "Je sais tout" de 15 de julho de 1909

por Blog Real, em 29.07.18

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:12

Reportagem da "Ilustração Portuguesa" sobre o Príncipe Real Luís Filipe (1906)

por Blog Real, em 22.06.18

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

 Ver Melhor Aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:47

Rei D.Manuel II na capa do "Le Petit Parisien" e do "Le Petit Journal"

por Blog Real, em 13.06.18

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:25


Este blog pretende ser o maior arquivo de fotos e informações sobre a monarquia portuguesa e a Família Real Portuguesa.

Mais sobre mim

foto do autor


A Coroa, é o serviço permanente da nossa sociedade e do nosso país. A Monarquia Constitucional, confirma hoje e sempre o seu compromisso com Portugal, com a defesa da sua democracia, do seu Estado de Direito, da sua unidade, da sua diversidade e da sua identidade.

calendário

Abril 2019

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

mapa_portugal.gif


Facebook



Comentários recentes

  • Anónimo

    Pode comprar Diretamente ao editor: https://www.t...

  • Blog Real

    Olá. Eu infelizmente não sei mais informações. Est...

  • Anónimo

    Sou neta de Alfredo Pereira Teixeira, Português, n...

  • Anónimo

    Quisiera saber el motivo por el que fue dom Diniz ...

  • Blog Real

    O que é o Vila Viscoa?E não me parece que o Duque ...



FUNDAÇAO DOM MANUEL II

A Fundação Dom Manuel II é uma instituição particular, sem fins lucrativos, de assistência social e cultural, com acções no território português, nos países lusófonos, e nas comunidades portuguesas em todo o mundo.
                                         mais...
 
Prémio Infante D. Henrique
Com a fundação do Prémio Infante Dom Henrique, do qual S.A.R. o Duque de Bragança além de membro fundador é Presidente de Honra, Portugal tornou-se o primeiro país europeu de língua não inglesa a adoptar o programa de "The International Award for the Young People".
                                         mais...

Brasão da FCB

Por vontade d'El-Rei D. Manuel II, expressa no seu testamento de 20 de Setembro de 1915, foi criada a Fundação da Casa de Bragança em 1933, um ano após a sua morte ocorrida a 2 de Julho de 1932. 
O último Rei de Portugal quis preservar intactas as suas colecções e todo o património da Casa de Bragança, pelo que deixou ainda outros elementos para precisar o seu intuito inicial e legar todos os bens sob a forma do Museu da Casa de Bragança, "à minha Pátria bem amada"

 mais...


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Tags

mais tags


Publicações Monárquicas

Correio Real

CORREIO REAL

Correio Real

REAL GAZETA DO ALTO MINHO


INSCRIÇÃO ON-LINE NA CAUSA REAL